quarta-feira, 30 de abril de 2008

AS OSTRAS NO PORTUGUÊS DE QUINHAMEL

A cerca de 30 Km de Bissau há uma vila chamada Quinhamel. Lá perto há dois sítios principais, conhecidos por quem de vez em quando faz uma escapadela da capital. E como um desses sítios é um hotel, que já foi explorado por um francês, e o outro é a casa de um português, que por ali se fixou há vários anos, não é raro ouvir-se a seguinte conversa: No domingo vou a Quinhamel. Pergunta imediata: Ao Português ou ao Francês?
Próximo de um dos últimos fins-de-semana conversa idêntica teve lugar, e disse o G.: No domingo vamos comer umas ostras ao português a Quinhamel?
Não sou, nem aprendi a ser, até agora, uma apreciadora das ostras da Guiné-Bissau. Gosto sim, muito, da canja de ostras da avó Berta. Mas só as ostras … Normalmente aqui assam-se: um bocadinho numa grelha em cima das brasas e abrem um bocadinho. As que abrem. As outras, maior parte, abrem-se à força com uma “faca” própria, com um bico curto e largo. Mas a vontade de conhecer um novo lugar tem primazia sobre qualquer apetite do estômago. Portanto, não foi movida pelas ostras que achei de imediato que aquela era uma óptima ideia.
Mais um local apaziguador na Guiné. A paisagem em Quinhamel é servida por um braço de mar, que torna a densa vegetação mais verde e brilhante. O som é quase somente o dos pássaros.


O Senhor Inácio, cujos mais de oitenta anos, lhe aparentam metade disso, tem a fama, que eu confirmo, de servir as melhores ostras da Guiné-Bissau (as do Saltinho não se ficam atrás, mas é mais longe). De uma forma rudimentar, numas mesas feitas, ora de um bocado de tronco, ora de uma chapa de um antigo veículo, são depositadas as ostras acabadas de sair das brasas. Dir-se-iam quentes e boas, quentinhas (se fossem castanhas)! Mas por aqui quente mesmo é a temperatura, a qual parece ser um dos segredos da juventude, a julgar aqui pelo proprietário deste recanto, já desabituado do frio de parte da infância passada na Serra da Estrela.
Depois das ostras, de algumas recordações e histórias contadas entusiasticamente por quem não se cruza todos os dias com quem conhece as terras dos nossos tempos de miúdos, das conversas dos amigos sobre política e futebol, com clara preferência para este último tema, é tempo de apreciar a paisagem e a calmaria.


Antes da partida, ainda apareceu na mesa um resto de uma bebida exclusiva daquela casa – o TROTIL - , uma espécie de aguardente com segredo bem guardado pelo proprietário. Afinal são duas as especialidades da casa, além das boas ostras, esta bebida exclusiva. Quase todos se fizeram rogados mas ninguém se veio embora sem, pelo menos, molhar os lábios.


Lá ao longe ainda se ouviu tocar um CD (?!?! Talvez ainda alguma cassete) da banda sonora do Roque Santeiro, novela muito apreciada na minha infância, tempo em que só havia dois canais, e no horário nobre todos víamos o mesmo programa, e o Senhor Inácio parece lamentar quando diz que há por ali um barzito, que aquela música, recordações para alguns de nós, abafa temporariamente o som dos passarinhos e das folhas que se agitavam ao toque da brisa, por cima de nós, nas árvores que nos deram a sombra e frescura de mais um dia a gravar nas memórias da Guiné.

sábado, 5 de abril de 2008

A D. BERTA

Agora na casa da avó, num local onde se acorda com o crepitar do lume e o cheiro a café de cevada, e quando se olha pela janela de manhã o manto verde está coberto de branco, longe da Guiné por estes dias, lembro aquela avó que muitos adoptam em Bissau.
É um desafio falar numa mulher tão querida, tão admirada. Há muito que vos queria falar da D. Berta e tenho adiado à espera das palavras que consigam descrever o que se sente naquele lugar especial. À espera disso temo que as palavras nunca cheguem.
A D. Berta é uma mulher especial com um lugar único em Bissau, com um toque de encantado. O Cantinho da Avó Berta é também chamado de Pensão Central. Neste edifício, na Av. Amílcar Cabral, com uma grande varanda que rodeia todo o 1º andar, há um alojamento modesto e um restaurante com a estranha capacidade de nos transportar no tempo. Sabe quem já lá esteve do que estou a falar. Da calmaria após o almoço, a brisa a levantar um pouco todos os tecidos coloridos, panos de parede e toalhas, e se num desses momentos se tiver a sorte de ouvir uma “morna”, passar os olhos por cada um daqueles quadros, retratos, fotos, dedicatórias, paredes inundadas de recordações de décadas e décadas passadas.
A D. Berta nasceu em Cabo-Verde mas é Bissau que mais espaço ocupa no seu coração, na cidade que escolheu para viver há mais de 60 anos; foi nesta cidade que, durante o último conflito militar (1998) demonstrou as suas extraordinárias capacidades humanitárias, a sua solidariedade imensa. Pelas suas qualidades excepcionais foi já condecorada pelos 3 países a que mais está ligada: a própria Guiné (pelo Ministério do Turismo), Portugal, e há alguns dias por Cabo Verde.
Para além do quanto é boa, carinhosa, do quanto sabe ajudar, serve ainda alguns dos melhores pratos em Bissau. É ali que se come o melhor “Pitch Patch” - canja de ostras - e a melhor salada de camarão.
É um lugar familiar, e muitas das pessoas que por ali passaram adoptaram esta carinhosa avó, que por sua vez continua a ver crescer o seu rol de netos.
Hoje é daqueles dias que mais sinto o quanto é bom ter uma avó, aquela casa que não sendo “a nossa”, é aquela onde ainda sentimos que pertence uma grande parte de nós.
É por isso que compreendo este sentimento que liga muitos dos que aqui passam a avó Berta. É bom poder haver um lugar assim aqui tão perto, onde estamos tão longe.
(O texto foi escrito há alguns dias, quando estava efectivamente na casa da minha avó, infelizmente o tempo e a net só agora permitiram que o divulgasse aqui, agora novamente em Bissau.)