quarta-feira, 24 de junho de 2009

MENÔ E ONDINHA, AS FILHAS DA NENÉ

A Ondinha foi a primeira dos 4 filhos da Nené a querer conhecer-me, há mais de quatro anos. O seu verdadeiro nome é Benamexare, é o nome que tem no BI, mas odeia-o (mesmo), e só o revela a muito custo. O nomi di tchon é Ondinha e a maior parte das pessoas só a conhece assim. A outra filha da Nené também tem um nome no BI e um nome da terra. Chamam-lhe Menô mas no registo é Eraclina. A Ondinha é quem aparece aqui em casa mais vezes e nunca as tinha visto juntas. Até este dia em que lhes pedi. Afinal nunca tinha calhado porque apesar de muito diferentes são muito amigas.
A Menô tem 21 anos, é mais tímida, a Ondinha tem 17 anos e é extrovertida, faladora.
Estudam as duas na 9ª classe, fruto de atrasos por diversas e más razões, a guerra, anos escolares sem efeito, um deficiente sistema de ensino público. Estão finalmente numa escola privada, dizem que o ano está a correr bem e que vão passar de classe. Está quase a acabar o ano lectivo. Depois da 11ª classe querem seguir para o ensino superior; a Menô sonha ser médica ou enfermeira e a Ondinha quer ser jornalista e modelo.

Os cursos vão ter que esperar e sabem que aqui será difícil essa formação, mas a Ondinha já vai dando os passos para concretizar um dos seus sonhos. Em 2007 participou num desfile no Campo Sueco e ganhou o 1º Prémio ao representar o seu Bairro, Bandim I (junto ao mercado do Caracol), e em 2008 participou numa passagem de modelos na Lenox.

No dia-a-dia estas duas mulheres da casa, por mais de metade do dia em que a mãe está a trabalhar, contam que ajudam nas tarefas da casa. Levantam-se às 6 horas da manhã, vão apanhar água se for necessário, limpam a casa antes de sair. Vão para a escola a pé e têm a sorte de ser perto. Esta classe tem aulas de manhã mas no próximo ano a 10º classe será de tarde. Num dia cozinha uma e noutro dia a outra, e a que não cozinha arruma a loiça a seguir.
E os irmãos? Dizem que os rapazes também ajudam às vezes, o mais velho menos.
À tarde resta-lhes algum tempo para descansar, estudar, brincar.
Ao fim-de-semana gostam de ir à matiné da discoteca Sonhos.

Já começa a ser mais comum entre as jovens guineenses casarem e terem filhos mais tarde, mas ainda não é a maioria. Estas duas raparigas parecem-me mais meninas do que mulheres quando olho à volta e muitas das raparigas das suas idades têm já uma rotina diferente. Não é isso que querem para já. Têm outros objectivos. A sua formação já foi adiada tempo demais. Querem acabar os estudos, querem um curso de informática, querem ter esperança de que as suas vidas podem ser diferentes de tantas outras.

Quando lhes perguntei se pudessem escolher uma qualquer prenda que alguém lhes mandasse de Portugal não hesitaram: um computador portátil. Olham para o meu como se fosse a coisa mais fantástica que alguma vez viram. Explico-lhes o que é o messenger e que estou a falar em tempo real com uma amiga que está em Portugal. Primeiro a dúvida, depois o fascínio. É mesmo.

Quando lhes peço para serem mais contidas a pedir, a Menô pede roupa e livros, em especial um livro sobre etnias da Guiné-Bissau, e a Ondinha um MP3 e revistas de modelos. Concretizável. Fossem os seus sonhos também assim.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

TÁXI

No primeiro ano andei muitas vezes de táxi em Bissau. Depois cada vez menos até quase nunca. A semana passada apanhei um táxi na Avenida em direcção ao centro. Já nem me lembrava da última vez que tinha andado de táxi.
Mas lembrava-me, claro, que os táxis em Bissau são colectivos. Este vinha vazio quando entrei mas, à medida que avançava na Avenida, o taxista ia circulando mais perto do passeio na esperança de apanhar mais um cliente com destino no mesmo sentido.
Quando nos aproximávamos do destino já achava que desta vez não iria partilhar o táxi com mais ninguém, e então comentei com o Sene (taxista): Hoje não há muita gente a andar de táxi.
Diz o Sene: Esses tempos é assim. É a crise. Pessoas não andam mais de táxi. De facto olhei com mais atenção, e parece haver mais pessoas a pé e os táxis circulam cada vez mais com um só cliente.
Tive pena do Sene e de todos os outros. Aqui, os transportes públicos têm sido dos pequenos negócios mais rentáveis e acessíveis a vários guineenses (noutros negócios predominam internacionais).
Na Guiné tem-se ouvido falar menos de crise do que comparado com o resto do mundo. Se contacto diária e repetidamente com a palavra crise tal deve-se às notícias que vejo na RTP ou leio na internet. Talvez por na Guiné a situação ser permanentemente mais difícil que na maioria dos outros países (na última contagem era o 3º mais pobre do mundo) fala-se menos na palavra crise.
Agora torna-se assustador a constatação de episódios como este. Quando se pensa que aqui tudo está tão mau e que já não pode piorar. Pode sempre.
Nos dias que se seguiram voltei a andar de táxi, uma ou outra vez foi partilhado, outras não.
Uma viagem de táxi pela cidade custa, para a maior parte dos percursos, 300 Francos CFA (cerca de 0,45€).
Os táxis são na sua maior parte Mercedes velhos que vieram da Europa e alguns encontram-se em mau estado e aqui acabam de se deteriorar até não conseguirem circular mais.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

MUSEU ETNOGRÁFICO I

Durante mais de 4 anos passei à porta quase todos os dias. Pensei inúmeras vezes passo cá depois ou a ver se venho amanhã só para fazer uma visita.

A semana passada cada dia que passava à porta havia peças cá fora. Primeiro pensei que pudessem só andar em arrumações, limpezas. Até que um dia pensei: será que vai sair daqui, irão remover peças para outro lado? Tanto tempo a adiar a visita ao museu e querem ver que um dia destes não há nada para ver.

Mais vale tarde que nunca, era aquela a oportunidade. Se acreditarmos no destino era só naquele dia que tinha que acontecer esta visita.

Assomei a cabeça à porta e perguntei logo se iam tirar peças do museu para algum lado.
Era mesmo isso. Vão sair mas vão voltar. Vão fazer parte de uma exposição que vai ter lugar na Argélia, por ocasião de um Festival Pan-Africano, com incidência especial sobre rituais.

Conheci então a Eveline, que é a Directora do museu, o Albano que é o Conservador, e a Inácia que é a Documentalista. Faltava o Guia que nesse dia não estava mas qualquer um dos presentes poderia ajudar a tirar dúvidas sobre as peças.

Comecei por fotografar as peças expostas cá fora, ao sol, à espera de serem transportadas para outro lugar.

Esta peça sempre me fascinou e no entanto não tem sido fácil decorar o seu nome: é o Ninte Kamatchol, que parece ser uma mistura de uma cabeça de ave em rosto humano.

É da etnia nalú, tal como a minha Nimba que é a minha peça favorita.

O mais fascinante no artesanato é o seu simbolismo. Explicaram-me que o Ninte Kamatchol é usado em cerimónias de iniciação e de “tchoro” do marido. Nestas últimas as esposas do marido, sentam-se em frente desta peça e contam tudo o que marido fez em vida de bom e de mau.

Fiz uma pesquisa e encontrei
AQUI mais informação.

Depois, finalmente, entrei no museu para a minha primeira visita que não terá sido a última. O museu é pequeno e não tem muitas peças, deve ser o museu mais pequeno que já visitei, mas mesmo assim diria que apenas retive um terço da informação, pelo que terei que voltar.

Poucos metros após a entrada, à esquerda, estão as seguintes esculturas, três bustos que representam a assimilação portuguesa.




1) Busto de homem da etnia papel ou mancanha, com pente na cabeça, representando o adquirir do hábito de pentear;














2) Busto de mulher de etnia balanta, que está representada por ter passado a usar roupa para se vestir, usavam só uma banda, dizem-me;










3) Busto de homem de etnia mandinga, considerada então a etnia mais indígena.






Curiosidades:
Onde está tudo isto escrito? Quem esculpiu estes bustos?

E a conversa com a Eveline toma o seguinte rumo:
Antes da Independência era chamado o Museu da Guiné Portuguesa, e situava-se no edifício da actual Primatura. Gostariam que voltasse para lá. E eu, que idealizo uma Biblioteca da Faculdade neste edifício, acho a ideia excelente. Têm vários apontamentos sobre as peças mas o sonho de todos eles era que existisse um catálogo do museu. Não me posso comprometer a fazê-lo com eles (infelizmente) mas comprometo-me a divulgar a ideia. Quem sabe não aparece por aqui um historiador, antropólogo ou outro interessado numa investigação que pudesse abarcar esse projecto. E um financiador interessado?

Os bustos têm a seguinte inscrição “M Oliveira 1940”. E essa é uma falha nas informações que dispõem sobre as peças. Não sabem mais sobre o escultor mas dizem que era português. Andei a fazer pesquisas na net e não cheguei a nenhuma conclusão. Como me comprometi ainda a tentar descobrir quem era, agradeço se alguém puder ajudar nesta caça ao escultor.

Que jeito dava uma investigação mais profunda e um catálogo, maravilhoso, cheio de fotos e descrições!
Mais desta visita ao museu a relatar um dia destes.

domingo, 7 de junho de 2009

DIÁLOGOS EM MAIS UM DIA DE MORTOS

(Casa, 6:30 da manhã, toca a campainha)
A (voz ensonada): Sim. Que se passa?
Siaka (guarda): Dr.ª mataram Baciro Dabó!

(A meio da manhã no páteo da faculdade)
A: Armando que cara tão triste é essa?
Armando: Vim agora da casa de Faustino. Família stá lá e tchora. Como é que é possível? Essa impunidade sempre.

(Casa, depois de almoço)
Braima: Faustino era homem simples, amigo de Braima.
(…)
A: Quando é que isso vai acabar?
B: É assim. Se alguém mata Braima, família de Braima vai matar, depois outro, sempre assim.
A: Mas vai ter que acabar um dia.
(B levanta as mãos em direcção ao tecto)
B: Só Deus ki sabe.

(No carro, a caminho do Bandim, cerca das 4h da tarde)
A: Vais amanhã na viagem? Acho que é na zona de Canchungo?
Revilino: Não sei.
A: Como não sabes?
R: Não estou a sentir bem.
A: Mas sentes o quê? Se estás a ficar doente tem que se ir ver o que é.
R: Não é isso. Não sinto bem psicologicamente.
A: Então? É por causa da mãe do teu filho?
R: Não. É isso que aconteceu hoje.
(Suspiro. E depois em voz de revolta)
R: A Dr.ª acha que a gente algum dia vai ter outro futuro?
A: Ó Revilino não faças perguntas difíceis. Tudo se há-de resolver.
R: Se isso continua assim vocês ainda vão embora.
A: Ó Rivelino, não vou nada embora. Ninguém se vai embora.

Sexta-feira passada foi mais um dia de vergonha e tristeza na Guiné-Bissau.
Baciro Dabó era candidato presidencial e ex-ministro da Administração Territorial.
Hélder Proença era deputado e ex-ministro da Defesa. Para além dos dois, foram ainda assassinados o motorista e o segurança pessoal deste último.
Até ao dia de ontem pensava-se que o mesmo destino teria sido o de Faustino Imbali, antigo Primeiro-Ministro, por agora parece que está sob custódia militar.

Em todos estes anos sempre que a Guiné-Bissau é notícia na televisão e nos jornais que os meus familiares e amigos vêm em Portugal é sempre uma má notícia. A Guiné-Bissau ou é um narcoestado, ou há um golpe de Estado ou assassinaram algum político. Em
Março foi o próprio Presidente da República.

É impossível contrariar certas ideias com que as pessoas ficam quando nunca estiveram aqui e só ouvem essas notícias.

Não há razão conhecida para o que se terá passado na madrugada de 6ª feira. Sexta-feira à meia-noite já duas carrinhas com militares (ou pessoas vestindo uniformes militares, como é dito nas notícias) tinham passado para a casa de Faustino Imbali, a escassos metros daqui. Só por isso pedi ao Siaka que me avisasse se acontecesse alguma coisa durante a noite. Muitas suspeitas mas nem imagino o que terá sido toda aquela noite nesta cidade. Entrada nas casas das pessoas, tiros, detenções, gritos. Ao contrário das primeiras horas em que as notícias davam como certo o abortar de uma tentativa de golpe de Estado, a versão da vingança e outras semelhantes são cada vez mais ouvidas.

Não sei se importa saber àqueles para quem escrevo. Talvez a esses importe saber como foram as horas seguintes, o dia seguinte, no quotidiano da cidade.

De manhã fui a pé para a faculdade, os alunos apareceram para fazer os exames marcados. Tudo decorreu normalmente. A tensão dos exames cuja realização ocupou a manhã quase toda nem deu espaço para muitas conversas sobre o que se tinha passado. O tempo de antena nestes dias já se sabe, é para as dúvidas de última hora, a angústia de não se lembrar de alguma coisa.
Na cidade havia um pouco menos de trânsito do que o habitual mas nem tanta diferença assim. Havia gente a trabalhar, a vender, às compras, a acartar água, bidões. À tarde fui ao Bandim com o Revilino comprar coisas para a faculdade a preparar a cerimónia da próxima semana com toda a fé de que ela se irá realizar (umas compras a relatar mais tarde). Havia algumas lojas fechadas, outras de porta encostada, mas ainda havia muito movimento no mercado, como é normal.

À noite saímos para jantar como todas as sextas-feiras.

É estranho? Esta é a normalidade de um país que aos olhos de muitos não é “normal”. Alguém me disse que pela manhã eu parecia guineense porque parecia que via tudo o que se tinha passado como normal. Não é, nem eu acho. Mas é uma defesa das pessoas, de continuarem a viver como todos os outros dias, em parte porque estes episódios se repetem vezes demais. Durante o dia na rua as pessoas passavam, algumas tristes, outras assustadas, muitas delas conformadas.
Seria por causa do que aconteceu? Ou é sempre assim?

Há de facto em alguns sentimentos mais intensos, de revolta, de angústia, receios, incertezas. Mas para muitos deles é a continuação de todos os outros dias. Para o
André, que só pede em último recurso, e ontem veio pedir porque não tinha que comer. Ou para o Saliu que se tem empenhado tanto em controlar tudo o que é preciso em volta dos exames para que daqui a uns dias possa pedir uma ajuda para comprar um saco de arroz, será que o maior drama é terem matado o Presidente?, um ex-Ministro?, um deputado?
Muitas das pessoas aqui vivem um drama diário. O drama de muitos deles aumenta quando pensam, como o Revilino o disse, que algum dia a comunidade internacional lhes possa virar as costas. É por isso que sei que ao pé deles estamos seguros, apesar de tudo o resto que vai acontecendo.

Nenhumas destas palavras consolam ninguém, mas espero que a descrição da “normalidade” do meu dia dentro da “anormalidade” que é o estado do país, possa fazer alguns compreender que para mim não há um perigo nas ruas e há razões para continuar a estar aqui.

Para quem está por dentro da história isto ainda não significa uma tomada de decisão em relação ao futuro. Estarei por mais uns meses, depois disso ainda não se sabe.