quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O FERIADO DA LUA

O Fim do Ramadão

Hoje foi o feriado da lua (21/09). Não o único mas um deles.

Terminou o mês do Ramadão, o nono mês segundo o calendário islâmico, um calendário lunar. Durante os últimos 30 dias os muçulmanos, que neste país se aproximam da metade da população, fizeram o jejum.
Foi das primeiras coisas que o Braima me disse quando me foi buscar ao aeroporto: Braima stá no djumdjum.
Ana sabe o que isso significa. Significa que Braima quer bidon de iagu fresca todos os dias ao final do dia para levar quando for cortar o djumdjum.

O jejum começou a 22 de Agosto porque nessa noite apareceu a lua nova que indicava o início do mês do Ramadão.
Durante este mês os muçulmanos não comiam nem bebiam durante o dia, desde as 6H da manhã até às 19:15H. Não é só o não comer e beber, na verdade eles não podem engolir o que quer que seja, por isso lembro-me sempre que, neste mês (o do Ramadão e não o de Setembro), vemos frequentemente pessoas a cuspir, para não engolirem o próprio cuspo.

O dia que assinala o fim do Ramadão é um dia muito importante. Ter sido capaz de aguentar o sacrifício daqueles dias é uma prova de fé. E é um feriado em que as pessoas vão à mesquita pela manhã, usando as suas melhores roupas, se possível novas, juntam-se e comem e bebem o melhor que podem.

Fez-me lembrar o Natal ou a Páscoa à medida que fui percebendo os preparativos que eram feitos.

O Braima quis um sabador novo para estrear nesse dia, pelo que no sábado anterior fui ao Bandim comprar uma coisa que nunca tinha comprado na vida.

Hoje o Braima apareceu passava pouco das 10H da manhã. Já tinha ido à mesquita e vinha orgulhosamente mostrar o seu novo traje, o seu novo tapete de oração e pedir postal.
As fotos vêm primeiro para aqui e só depois serão reveladas para lhe entregar.

Aproveito para lhe pedir alguns esclarecimentos, já que o Saliu e o Serifo vieram pedir apoio para ficarem a assistir à partida da lua na noite de 5ª para 6ª.

É a noite de mancida, explica. Mancida de ficar a ver amanhecer. O Dafé explicou-me mais tarde que também se chama Laylat al Kadr, e que laylat é noite em árabe. Na noite do 26º para o 27º dia do jejum a lua (minguante) desaparece por completo e os muçulmanos despedem-se da lua que significa o princípio do fim do Ramadão. As duas ou três noites seguintes serão de completa escuridão, é de descanso, dizem. E só na 29º ou 30º noite aparece a LUA NOVA que assinala então o fim do Ramadão e do jejum. É feriado!

Digo, animada, que hoje é dia de comer muito mas Braima responde apenas: “se pode”.

Na casa da família do Dafé pode-se. Passo por lá um bocado em resposta ao amável convite para a festa de fim de Ramadão e aprendo um pouco mais sobre o feriado, o Alcorão e o árabe. Não me demoro pois demorado foi o caminho para ir ao e vir do Bairro de Antula.

Mais tarde passo pela maior e mais bela mesquita de Bissau, onde Braima vai fazer oração, frente ao Hospital 3 de Agosto, na Avenida.


Aparecem uns meninos nos seus novos sabador a pedir festa e troco a festa por mais um postal de mais um dia diferente.

Bom feriado
e
Salam Aleikum
(Que a paz esteja sobre vós / convosco)

domingo, 20 de setembro de 2009

SONS DE ACORDAR E AVENIDA CORTADA

Na terça-feira, dia 7, acordei ao som de sirenes, na quarta ao som do canto de aves, na quinta com a chuva a bater com força no chão, grade e portadas da varanda, e na sexta com o ruído do gerador. Adormeci sempre ao som ritmado do gerador.

Na terça o alarme das sirenes não era uma surpresa nem razão para alarme mas podia ser um motivo de curiosidade. Levantei-me e fui até ao cruzamento espreitar a Avenida.
Como imaginava, ainda deitada, uma das vias da Avenida estava reservada para viaturas do Estado, autorizadas com livre-trânsito ou de urgência.

Acontece com alguma frequência, por exemplo sempre que o Presidente da República viaja, na Avenida 14 de Novembro, ou melhor Avenida dos Combatentes da Liberdade (renomeada depois do assassinato do ex-Presidente Nino Vieira), é “cortada” uma via para passar a viatura presidencial e a respectiva delegação.

Quando isso acontece, se não for absolutamente necessário, não saio de carro durante o período que o corte de estrada durar. Todo o trânsito a circular numa só via é uma confusão de veículos que só visto e a diferença de demorar, por vezes, cerca de 1 hora a fazer um percurso que habitualmente se faria em 10 minutos.

Nesta terça-feira, no cruzamento, seis ou sete polícias controlavam a circulação de viaturas, impedindo sobretudo que entrassem ou se atravessassem na via reservada. Estavam nervosos. O mais velho deles, coxo, não queria nem deixar que os carros vindos do lado do bairro acedessem à via não reservada da Avenida, mas voltar para trás não era uma alternativa, e de vez em quando polícias e condutores gritavam uns com os outros e entre si.

As preocupações com a segurança eram enormes (as práticas seguidas questionáveis) mas não era de admirar; seis Chefes de Estado africanos e personalidades da vida política de diversos países vieram assistir à tomada de posse do novo Presidente da República da Guiné-Bissau: Malam Bacai Sanhá. Já antes tinha sido Presidente interino do país (1999/2000), é agora o 3º eleito, o 4º efectivo, e o 6º entre efectivos e interinos desde a independência.

Em todos os postes da Avenida (nunca iluminados) uma bandeira do PAIGC. Em todas as pessoas à beira da estrada uma esperança de que desta haja uma verdadeira mudança.
Fiquei um pouco à espera: queria ver passar a delegação do Presidente, na altura ainda o interino Raimundo Pereira, com os polícias batedores à frente, de lado e atrás, quase colados ao veículo presidencial ou então os 45 carros pretos compridos quase todos iguais, disponibilizados para esta cerimónia, penso que pela Líbia. Já os tinha visto passar no centro da cidade no dia anterior, todos em fila, quase colados uns aos outros, quatro piscas ligados e nenhum com matrícula. Quando eles passavam mais nada passava.
Esperei mais um pouco, passaram alguns carros do Governo, outros de missão diplomática, mas na verdade ainda havia pouco movimento. Aqui e ali uma ambulância com nome de um hospital em Itália ou um carro dos bombeiros de “Hudson Fire Department”. Traços da Guiné, sinal de ofertas no âmbito da cooperação internacional para ajuda ao desenvolvimento. Faz-nos sorrir.
Os ansiados carros e motas poderiam demorar a passar e havia muito trabalho para pôr em ordem neste feriado não programado, por isso quando recomeçou a chuviscar regressei a casa.

No final do dia soube que a cerimónia tinha corrido bem, sem incidentes, apenas com um atraso (típico) de três horas e meia. Ainda bem que não me demorei a ver os carros passar.

sábado, 12 de setembro de 2009

ONDE ESTAVA COM A CABEÇA?

Não sei o que me deu para sair de casa hoje. Esteve a chover horas seguidas sem parar. Era óbvio que as estradas estariam assim. Ou não andasse eu a ver este filme há quase 5 anos.

(Avenida que vai da Praça dos Heróis Nacionais para a Mãe d`Água)

(Rua do Bonjour no centro da cidade)

Bom, tinha prometido a um amigo que ia com ele ver uma compra importante que ele quer fazer, que prometo contar se se concretizar, e ao final da manhã, quando parecia que o tempo ia melhorar um bocadinho, lá fomos. Não foi nada boa ideia e ao fim de umas voltas pela cidade, com o tempo sempre a piorar, acabámos por adiar a pesquisa no mercado para um dia mais seco.

(Lado oposto da Rua do Bonjour que vai dar às NU)

Na estrada do Caracol, paralela à Avenida, num só sentido Mãe D`Água – Chapa, a hesitação perante um lago de lama. Bom, a toca-toca passou, o jipe também passa. Entra na poça gigante quase até meio mas volta a sair. Tenho mesmo que ir para casa e ter juízo.

A chegar ao Bairro está o Saliu ao portão, debaixo de chuva, chinelos de enfiar no dedo em cima da lama:
- Queria muito vir fazer visita para a Dr.ª! Ainda não tinha vindo desde que Dr.ª voltou.
- Obrigada Saliu! Não era preciso. Muito menos num dia como este.
- Não tem mal. Maimuna emprestou esta sombrinha
(traz um chapéu-de-chuva grande, preto, com duas varetas partidas). Não tem dinheiro para comprar uma sombrinha assim.
- Quanto custa uma sombrinha assim?
- 2.500.


Estaciono e está a Maria à entrada do prédio encolhida e a tremer.
- Maria, estás com frio?
- Sim.
- Está de chuva mas não está frio.
(Muda e a tremer aponta para a cabeça)
- Ah, estás doente?
- Sim.
Subimos.
- Queres Ben-uron ou Aspegic?
- Sim.
Típico.
- Junta um bocadinho de água, mexe e bebe. Toma um agora, outro só logo à noite. As melhoras.
- Sim.

Passados uns minutos a campainha. O Saliu com uma sobrinha nova.
- Dr,ª homem queria 3.000 por causa de chuva mas só paga 2.500.
- Boa Saliu. Até 2ª.

Passado mais um bocado a campainha outra vez. O Cabi. Ah pois, tínhamos um trabalho para fazer. Listas de convites, envelopes, etc.
- As pastas?
- Não pude trazer Dr.ª, tá muita chuva.
- A pen com as listas?
- Dr.ª não trouxe pen
(ri-se). Deixei em casa. Está a chover muito, sempre desde de manhã.
- A pen no bolso não se molha, não?
- Dr.ª de manhã cheguei todo molhado à Faculdade para ir abrir a Biblioteca. Tinha roupa num saco e mudei lá depois de chegar.
- Esquece. Não digas mais nada. Trabalhamos segunda-feira.

A meio da tarde estou na secretária, a escrever no computador, cortinados todos abertos, olho pela janela e está o
André a fazer sinais lá fora à espera que o veja. Pelo menos tem sombrinha. Fechada. Já só caem umas pingas. Vou à varanda.
- André que andas aqui a fazer?
- Um passeio.
(Dentro do bairro?, que é privado. Sim, pois.)
- Devias estar em casa.
(Silêncio)
- Ana, fizeram outra vez.
(Espero)
- Comeram e não deram-me de comer.
- Sobe.

Mas porque é que não está tudo em casa num dia como este?!?!?, penso.
As últimas revelações do André, contadas nesta semana do regresso, estão a dar que pensar desde ontem. Talvez para partilhar mais tarde porque tem que ser tudo visto com muita cautela. Todas as outras histórias são mais comuns. São normais estes episódios na época das chuvas: pessoas que não vão trabalhar porque nem conseguem passar num local com tanta lama, pessoas encharcadas até aos ossos, pessoas que não têm mais roupa seca para vestir, pessoas que adoecem mais do que em outras épocas do ano, vendedores de rua que se mantém à chuva porque é assim, carros que avariam dentro de grandes lagos enlameados, de profundidade às vezes desconhecida.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

MAIS UM REGRESSO A BISSAU

- Ali é Bissau!
- Ali? Mas está nevoeiro?
- Não. É mesmo assim. Não há luz!
- Não há luz eléctrica em Bissau?!?!
- Quer dizer há um sistema de energia da rede pública alimentado por geradores, mas a maior parte do tempo não existe dinheiro para o combustível ou manutenção pelo que quase nunca há luz nas ruas.
O ar atónito do passageiro europeu, ao meu lado no avião, não passa nem quando o seu anfitrião, guineense que não vem à sua terra há mais de uma década, o tenta confortar dizendo que a casa da sua família (onde pelos visto irão ficar) tem luz.
Apetece-me dizer-lhe que se devia ter informado melhor antes de vir, literalmente, às escuras, fazer prospecção de mercado para investir no país, mas fico-me por um sincero “boa sorte”.

À saída do avião a temperatura é a melhor do mundo, quentinho como eu gosto, e o já familiar cheiro a terra molhada denuncia que tem chovido, ou não fosse a época dela.

As pessoas que me vão buscar ao aeroporto têm variado ao longo dos anos; há uma que não muda. Desta vez pedi ao Braima para ir ao aeroporto e levar-me o jipe. Mas assim que saio da porta do aeroporto vê-se o
André a ultrapassar toda a gente e é o primeiro a agarrar-me a mala. Não falha. O Braima espantado com a rapidez daquele e sem estar à espera fica a olhar para mim, como que à espera, e acabo por lhe entregar a mala do portátil porque no seu olhar parece que se não levar qualquer coisa nem parece que foi ele quem me veio buscar.

A caminho do jipe, no estacionamento, aparece o Revilino, e o Cabi estava na carrinha à espera, não me tivesse eu esquecido de ligar a pedir para alguém me vir buscar. Não era necessário, obrigada na mesma, e amanhã lá estaríamos na
FDB.

Pego no meu jipe, dos pouco bens materiais que me dão alguma satisfação, e volto a conduzir na escuridão de Bissau, em direcção a casa.

Antes há que deixar o Braima em casa dele e para tal, no mesmo cruzamento onde habitualmente viro para casa, viro no sentido oposto, à esquerda no cruzamento do Bairro da Ajuda, sempre em frente irá dar ao Bairro de Missira. O arrependimento a poucos metros depois de virar para ali: não há alcatrão, só terra, lombas, buracos, poças de água e lama, e a única luz é a dos faróis do jipe. Devia ter ido à volta pela “Chapa”. Continuo entre a 1ª e a 2ª velocidade procurando passar no bocado menos mau de caminho.

(Cruzamento do Bairro da Ajuda)

Dá para aproveitar uma pequena "visita guiada", sabia que era ali para aqueles lados e pergunto a Braima:
- Onde morava o
Baciro Dabó?
- 2ª à esquerda.
- Ao passar ao lado, espreito, e lá está, uma vivenda alta e iluminada a contrastar com tudo o que está à volta.

Continuo no escuro. De repente o barulho de um pequeno gerador e eis que no meio da tabanca surge uma casinha cheia de luz, portas e janelas abertas. Alfaiates vários, em grande azáfama até no alpendre, máquinas de costura, panos e linhas. Fantástico.

- Estão a trabalhar às 3:30H da manhã? – pergunto a Braima que responde naturalmente: - Tem que ser, estão a fazer vestidos para o Ramadão.

Sorrio. Não pude tirar uma foto mas aquela imagem está gravada e esquecer-me-ei dela muito depois de fotos que efectivamente tirei.

Deixo o Braima, que está agora no djundjun (jejum) à porta da sua casa e sigo para a minha, desta vez pelo caminho da “Chapa”, bem melhor.

A temperatura continua óptima na rua, não me cruzo com mais nenhum veículo. A sensação de que esta é uma aventura que não tem fim, que é assim há anos, e ainda poder ser surpreendida com pequenos mas grandes acontecimentos volta a estar presente e sinto-me bem por ter regressado.

(Estrada/caminho de lama em época de chuvas)