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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

RUAS DAS FLORES

Uns dias antes do dia 2 de Novembro era assim por várias ruas da Guiné. Flores de papel de todas as cores. Dia 2 de Novembro é o dia dos mortos, e feriado na Guiné-Bissau.
É o dia de visitar as campas daqueles que perdemos, e como em muitos outros países é tradição levarem-se flores.
Dois dias antes, na 6ª feira, 31 de Outubro, noite das Bruxas, as chuvas deram o seu último sinal durante os próximos tempos. Parece inacreditável mas é todos os anos por volta deste dia que termina a época das chuvas. Há quem diga que assim acontece para se lavarem as campas.
Que em seguida se enchem das cores destas flores, talvez para deixar menos negro o sentimento de perda e tristeza que marca o dia.
São raras as flores na Guiné-Bissau. Porquê? Não faço ideia. Mas não há jardins de flores. Viajamos para qualquer lado e mesmo em paisagens verdejantes, onde parece que toda a flora abunda falta a cor de uma FLOR.

Para recordar e para quem tem curiosidade, os preços:
Coroa de flores – 2.000 FCFA = 3,04€
Ramo de flores – 1.000 FCFA = 1,52€

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

NIMBA, PROTECTORA DAS MULHERES

... E MUITO MAIS ARTESANATO

Mais uma das muitas coisas boas desta terra é algum do artesanato que por cá se faz. Seria bem diferente daquilo a que estava habituada a ver à venda em Portugal não fosse a globalização. É verdade. Nas fotos em baixo as 3 últimas foram tiradas numa feira anual em Loures, mas poderiam ter sido tiradas ainda em muitas outras feiras do Norte ao Sul de Portugal, em especial naquelas festas regionais e municipais que abundam pelo Verão.
E podem confundir-se com algumas bancas de venda de artesanato na Guiné-Bissau ou no Senegal. Aliás este tipo de artesanato que chega a Portugal vem do Senegal e não da Guiné. E há algumas coisas há venda por aqui que também vêm do país (es) vizinho (s).

Mas não esta peça, que não é por ser minha, mas é a Nimba mais perfeitinha que tenho visto das poucas que se vendem em Bissau.
A Nimba foi a primeira peça de artesanato que comprei no primeiro ano na Guiné. Sendo, ou muito esquisita ou pouco apreciadora não gostava de todo o artesanato e punha “defeito” em muita coisa, mas esta peça, que alguns amigos acham um tanto ou quanto “feia”, seduziu-me, primeiro sem qualquer razão aparente, e em segundo o seu simbolismo finalizou a compra.

Dizem que a Nimba é um símbolo de protecção das mulheres.

Tenho a minha fé e as minhas crenças, sinto-me melhor por acreditar que Deus me protege, que eu própria, a família e os amigos a isso ajudamos, mas em Roma sê romano, e se estes anos de Guiné têm sido abençoados a companhia da Nimba aqui por casa também pode ajudar a concretizar o que simboliza. Seja porque razão for esta é a peça mais apreciada sentimentalmente aqui por casa. E algo da Guiné-Bissau que me acompanha quase desde o início e que um dia parte comigo.


















Onde comprar artesanato na Guiné?
* Centro Artístico Juvenil na Avenida 14 de Novembro
* Avenida Amílcar Cabral, em dois pontos principais:
-Por baixo da Pensão da D. Berta
-Frente ao Nunes & Irmão / Ao lado dos Correios


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

SUPER MAMA DJOMBO

De volta à Guiné-Bissau, com a garra de sempre, a vontade de viver esta terra ao máximo, quero voltar a escrever mais sobre a terra, sobre o que se vive, acontece.
Na 6ª feira foi dia de concerto. Os Super Mama Djombo actuaram no espaço Lenox, aqui bem perto.
A Orquestra Super Mama Djombo existe há quase 40 anos mas estiveram uns anos separados e agora, de novo juntos e com alguma renovação no grupo têm um novo álbum (a juntar a pelo menos 8 já gravados): Ar Puro, gravado na Islândia.
O ambiente não é fácil de descrever e qualquer descrição ficaria aquém da sensação daqueles momentos. Toda a população vibra com as músicas que consistem essencialmente em crítica política e crítica social.
Só tenho este último álbum mas essa é umas das coisas que tem que mudar.
Para ouvir uma música das antigas
AQUI.
E mais um bocadinho
AQUI.

E um bocadinho de “Alma” (do último álbum):
Nha camarada
Nha estimado amigo

domingo, 5 de outubro de 2008

ATÉ JÁ

Desde Julho que nos andamos a despedir dos amigos (novamente). A minha passagem pela Guiné é semelhante a tantas outras. Viemos um dia para uma experiência que saberíamos que acabaria, só não saberíamos quando. Vim por 1 ano (lectivo). Como a maior parte dos cooperantes (sobretudo os ligados a projectos de educação). Apaixonamo-nos pela terra, pelos projectos, por amigos, por tanta coisa. Desejamos ficar mais tempo. E temos ficado.
Os amigos que aqui tenho feito, os mais amigos, ficarão muito para além da Guiné. É por isso que nas férias nos encontrámos, alguns casaram este Verão em Portugal e estivemos juntos nesse dia.
Custa-nos falar de despedidas e é por isso que dizemos que não é uma despedida, é um até já.
Sabemos que dificilmente voltaremos a estar juntos aqui, como temos estado, mas estaremos juntos muitas outras vezes, em outros lugares.
Os guineenses adoram esta expressão, e nós também: “estamos juntos”.
Sim, estamos.
Para todos os que mudaram de lugar, mas que deixaram saudades neste, um beijo e abraço sentido. Muitos beijos e saudades em especial para a Mónica, Liliana, Pedro, Tânia e Domingos. E claro o João.

(Dias cinzentos estes últimos em Bissau)
(Mas boas recordações das despedidas para ajudar a iluminar os dias)

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

JUNHO É PASSADO

Junho foi dos meses mais difíceis dos quase quatro anos de Guiné (Julho também). Mas como sempre acontece há também coisas boas para recordar e mesmo sobre algumas menos boas é mais fácil falar.
Dir-se-ia que o Euro 2008 não foi famoso para Portugal, mas em Bissau, nas vésperas do dia 7 de Junho, dia em que começava o Euro e em que na Guiné-Bissau se assinalavam os 10 anos do início de uma guerra entre a Junta Militar e as forças leais ao então e agora Presidente Nino Vieira, os jornais transbordavam de páginas sobre o Euro, sobre o futebol, as equipas, os jogadores mas nada sobre aquele acontecimento trágico. Milhares de mortos, famílias ainda hoje afastadas, fome, dor, ninguém esqueceu. Desde então o país ainda não recuperou. Mas um jornal diário, generalista, onde a edição habitual não ultrapassa as 20 e poucas páginas, conseguia dedicar 12 dessas ao futebol e apenas meia página a uma breve notícia sobre o conflito armado.
Fora isso. Os guineenses adoram futebol e a força e amizade com que torcem pela Selecção Portuguesa enche-me a mim e muitos de alegria.

Há mais episódios desportivos onde os guineenses torcem por nós e nós por eles. Também no início de Junho decorreu o II Torneio de Tennis da Cooperação Portuguesa, em Bissau.
Para quem gosta de ir ver os jogos, a disputa entre os amigos e rivais (?! só se for mesmo na modalidade) Osvaldo e Manuel é imperdível. Encheu-me de orgulho o 8º lugar conquistado pelo Osvaldo, o melhor entre os portugueses. Mas a final do torneio entre o Peti e o Bene não fica atrás de nenhum Open do Estoril ou Roland Garros, são profissionais a sério. Pessoalmente até prefiro o Estádio Lino Correia, em Bissau, onde o ambiente de desportivismo é acolhedor e contagiante.



Menos desportivo e mais académico foi mais um momento de entrega de diplomas a licenciados na Faculdade de Direito de Bissau. E aqui estou eu e o Yasmine num dia que me emocionou ver receber os diplomas numa cerimónia pomposa àqueles que já foram meus alunos. É das melhores sensações do mundo sentir que se fez parte da formação de alguém, que ensinámos alguém, que aprendeu connosco e que aprendemos com eles. O Yasmine foi o melhor licenciado do ano dele, e em seguida foi meu assessor em duas cadeiras novas do curso, tarefa nada fácil. Foi um colega e amigo, que agora está mais afastado por excelentes motivos profissionais. Conseguiu um emprego maravilhoso e merecido que me enche a mim e a todos na faculdade e no projecto de orgulho.

Com tanta emoção, as chatices com a falta de combustível até parecem menores.
Se às vezes no conforto das nossas casas (aqui) nos esquecemos de onde estamos, a verdade é que nos devíamos lembrar mais vezes, e foi isso que aconteceu durante várias semanas. Às vezes falta a gasolina, acaba, não há à venda durante uns dias. Mas dessa vez o problema foi com o gasóleo, alguma falta mas essencialmente divergências entre as gasolineiras e o Governo – sim, aqui como em Portugal, como noutros países.
As filas intermináveis ao pé das gasolineiras eram o problema menor; ao racionar do combustível do gerador é que é difícil habituarmo-nos.
Pois é, regra geral não há luz em Bissau, luz da rede, mas por todo o lado proliferam geradores altamente poluentes e barulhentos mas que nos permitem estar por exemplo aqui, no computador. Infelizmente a dependência pelo gasóleo é muito grande.
Estar então algumas horas por dia sem luz, sem computador, sem ar condicionado, sem frigorífico, sem água, deixou-me muitas vezes triste, às vezes desesperada, mas com uma admiração cada vez maior por um povo que vive sem nada disso, dias após dia, e ainda assim sabe viver feliz.

domingo, 1 de junho de 2008

DIA DA CRIANÇA


Um pouco por todo o Mundo hoje comemora-se o dia da criança.
Na Guiné-Bissau também há quem se lembre que hoje é o dia da criança. Pelo menos ontem no orfanato já algumas crianças ensaiavam músicas enquanto outras já brincavam com bolas oferecidas. Hoje algumas amigas foram distribuir os sorrisos enviados pela
Kassumai. Também na escola do ensino básico Salvador Allende havia um programa de actividades para este dia. Mas nem todas as pessoas se lembram, nem todas as crianças sabem.
Passei ali pela tabanca dos meus meninos, onde vive a Meida dos olhos azuis (e onde vivia a Fatinha), e ninguém parece saber que dia é hoje.
Afinal não é um dia muito diferente de outros. Alguns foram buscar água, o que tem que se fazer todos os dias e hoje não pode ser excepção. Lavar a loiça também é tarefa de todos os dias, seja que dia for.

Fico por ali um bocado, tempo suficiente para perceber que meia dúzia de brinquedos não chegam para ir visitar uma tabanca, onde as crianças abundam. Não é problema, aqui toda a gente sabe partilhar. O espírito comunitário deste povo é verdadeiramente impressionante, genuíno. Alguns estão tristes porque ainda não estão a agarrar um brinquedo, que já foi de algum menino que vive em Portugal, mas dali a instantes, o brinquedo já voltou a passar de mão, e todos terão o seu brinquedo por alguns momentos.
Quando me venho embora diz o homem garandi (homem grande/velho): Já acabou? Respondo: Sim, são muitos. Não é possível chegar a todos. E ele conclui: São muitos. É o problema africano!
Não sei se o problema é serem muitos, se os recursos é que são poucos, ou se tudo é mal governado e mal distribuído.
Aquelas crianças ainda não pensam nisso. Continuam a brincar, como deve ser.

(Agradeço a uma série de pessoas, amigas da minha mãe e da minha tia, que ao saberem que aqui estou, lhes vão entregando coisas dos filhos, roupa e brinquedos em muito bom estado, e que vou trazendo e distribuindo.)

FESTA ACADÉMICA

Na 6ª feira foi noite de festa de encerramento das aulas da FDB. A festa foi na Tropicana, um dos melhores espaços nocturnos de Bissau. Os guineenses adoram festa, e os universitários idem. Agora juntem-se as duas características e a festa só podia ser de arromba. Alunos, professores, funcionários, colaboradores e mais alguns convidados viveram horas de alegria, boa disposição, divertimento. Não há palavras que descrevam a música, perfeita, o ambiente, perfeito. Não há foto que o retrate, aliás quase todas ficaram escuras, desfocadas e afins. Mas isso não interessa. Uma só palavra descreve o ambiente: harmonia. Os alunos felizes, espantados com os professores, sim que afinal também dançam e se divertem como toda a gente. Caíram as máscaras e ali todos eram iguais, todos riam, bebiam, falavam e dançavam ao mesmo tempo. Foi um dos melhores momentos que aqui tenho vivido. A sensação de satisfação é indescritível.