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domingo, 18 de janeiro de 2009

BIJAGÓS III

SOBRE BOLAMA ... E AS CANOAS
Não era associado a tanta tragédia que gostaria de voltar a falar nos Bijagós. Mas esta semana que agora acabou foi de profunda tristeza e luto para o país.
É assim a maior parte dos transportes entre o continente e as ilhas dos Bijagós, canoas rudimentares, com um motor simples, que tantas vezes avaria, sem qualquer segurança, sem coletes salva-vidas, sem rádio, sem GPS, nem sequer um simples foguete de sinalização.
Mais de 80 mortos entre o passado Domingo e Quarta-feira em quatro naufrágios, o mais grave no Domingo entre a ilha de Pecixe e o Biombo, outro no Rio Corubal, perto de Xitole e por fim duas canoas em
Varela.

Até hoje foram quatro as minhas viagens até aos Bijagós. As duas primeiras, contadas aqui, foram excelentes experiências. As duas últimas tiveram um final feliz mas até ao baixar da cortina houve algum susto e dor, em especial a última, que fica para depois.

Esta terceira história sobre viagens aos Bijagós teve lugar em Setembro de 2005. Mais de duas horas à espera do transporte que nos levaria de Bissau a almoçar em Bolama, e regressar nessa mesma tarde a Bissau já seria suficiente para achar que o plano para um Sábado tão agradável dificilmente seria cumprido.

Acabámos por sair de Bissau ao final da manhã nesta canoa, de seu nome Bragança, (de ar, ora aventureiro, ora duvidoso), e o motor que, mesmo para quem não percebe nada do assunto, tinha um “trabalhar esquisito” revelou logo passados alguns minutos a sua fragilidade para a missão em causa. Alguma manutenção pelos marinheiros a bordo (manutenção e marinheiros são eufemismos), sem mais do que uma chave que parece servir para mudar o pneu de uma bicicleta e o motor voltou a ganhar força para mais uma hora de viagem, não fosse o único senão o facto de precisarmos dele por mais outra hora ainda. E assim, se ouviu, aquele “poc, poc, poc” de quem dá os últimos suspiros de vida.

Ficámos literalmente à deriva no meio do mar. Para evitar sei lá o quê, largou-se a âncora e ali ficámos. Sem motor, sem rádio, sem coletes salva-vidas, sem nada. Reacção quase automática: vamos telefonar para que alguém nos venha buscar. E rede?

Houve quem se entretivesse a fazer uma vela com uns plásticos que havia a bordo, e quem tivesse tentado remar com uma pá de construção. São estes resultados inúteis que se obtém de experiências movidas por meia dose de esperança e meia dose de desespero.

Um milagre aconteceu, e mesmo os mais ateus a bordo nesse dia, não sabem explicar de outra forma o que aconteceu em cerca de dois minutos, os únicos em que um ponto de rede chegou ao telemóvel da Cláudia. No tempo em que as lutas entre operadoras de telemóveis estavam ao rubro não era possível ligar de um telemóvel da Guinetel para outro da Areba (agora MTN) e vice-versa, e como a Areba tinha acabado de chegar ao país ainda poucas pessoas tinham o cartão dessa rede. Só um contacto da Areba era possível, o Dr. Fodé. Em menos de dois minutos foi possível ligar ao Dr. Fodé, explicar mais ou menos o que se estava passar e em seguida a chamada caiu. Não voltámos a ter rede, da Guinetel nunca, da Areba só aquele bocadinho.
Não fazíamos ideia do seguimento que poderia ter tido aquela comunicação, foi tudo tão à pressa.

Cansados de esperar, ao sol, à chuva que entretanto caiu, e novamente ao sol, e avistando margem de um lado e de outro – Bolama à direita e a margem do continente à esquerda (que é como quem diz mato de um lado e mato do outro) - alguma coisa tinha que ser feita.

Sempre mais aventureiro, o João atirou-se à água, e não fosse ter-se mantido agarrado à corda da âncora nunca mais teríamos visto o João. Resultado, puxámo-lo para cima, a rir-se à gargalhada e achar que não era nada perigoso.

Bom, perceber-se a força da corrente, levou alguém a achar que o melhor era levantar a âncora porque quase de certeza que seríamos arrastados até à margem de Bolama. Ainda que fora do centro ou longe do porto (não fazíamos ideia) sempre seria a ilha.

Como a âncora não subia (não consigo explicar mais de metade das situações daquele dia) resolveram cortar a corda. E assim ficámos à deriva no meio do mar numa canoa sem motor nem âncora.

O destino arrasou com todas as previsões “científicas” de quem achava que íamos ser arrastados até Bolama, e fomos parar à outra margem. Primeira tentativa de sair da canoa e enterrávamo-nos até aos joelhos numa lama.

Foi nesse bocadinho de terra lamacenta que o Jorge conseguiu "A foto da viagem" (que depois até serviu a alguma publicidade para redes móveis). Deslizando em movimentos semelhantes a quem faz sky o João de telemóvel na mão e de braço esticado no ar procurava rede no telemóvel, naquilo que parecia ser mesmo o fim do Mundo. Ainda hoje não sei onde estávamos. E nunca conseguimos rede.

De volta à espera na canoa, quase no lusco-fusco apareceu uma canoa. Alguns sinais, movimentos, gritos, avistaram-nos, estávamos salvos. Ou não. Tudo bem explicadinho e um pedido de que nos rebocassem até ao porto de Bolama: Não era possível.

Parece inacreditável mas estávamos a meio caminho de ser salvos por uma canoa que não nos podia valer porque transportava madeira ilegal. Bom, não nos podiam levar ao porto de Bolama mas podiam-nos levar até à margem de Bolama e já estaríamos mais perto.

Rebocados lado a lado lá fomos e ali cada vez mais perto do destino da viagem tivemos direito ao mais belo Pôr-do-Sol do farol de Bolama.


Ao anoitecer chegaram mesmo os meios dos nossos salvadores. Ficámos a saber que o Dr. Fodé foi imediatamente ter com o Dr. Silva Pereira, que de imediato tratou de tudo para que alguém nos encontrasse e nos fosse buscar. Ainda hoje devemos continuar a dever agradecimentos a ambos mas nunca saldaremos essa dívida.

Aí estava então, a lancha que nos rebocou até Bolama.

É impossível resumir mais esta história, de cada vez que a conto é assim, extensa.

Aqui ficam as fotos de Bolama do dia seguinte, um dia fabuloso.

A casa onde ficámos a dormir. Há 40 anos atrás deveria parecer um pequeno palácio. Agora tinha portas e janelas partidas, buracos nas paredes, tinta lascada. Dividi o quarto com a Mónica. Duas camas que pareciam do quartel da tropa de há décadas. Colchão velho, sem roupa de cama. Começámos a conversar mas adormeci e dormi profundamente.
Com excepção da foto deste edifício, reabilitado por um projecto de pesca (de uma ONG?), as fotos seguintes são dos restos de edifícios coloniais.
O Palácio do Governador. Onde entrámos para ver os anunciados frescos no tecto e paredes e saímos pouco depois a correr cheios de pulgas nas pernas, aos pulos e a sacudirmo-nos. Risota total. Lá dentro passeiam-se diversos animais, cães, porcos e galinhas. (Sim, uma imundice. A lamentar.)
Uma piscina abandonada, de água verde-acastanhada.
Vestígios de jardins, outrora arranjados.
E restos, muitos restos, de tudo.
Antes do almejado almoço em Bolama, um passeio de barco, não na canoa Bragança, que a esta hora estava praticamente toda afundada no porto de Bolama, mas na lancha que nos salvou, para uns banhos na Praia de Ofir, antes muito requisitada, hoje quase sem areia. Fez valer quase tudo.

Finalmente almoçámos em Bolama e regressámos a Bissau só com 1 dia de atraso em relação ao plano, e com uma grande aventura para contar. Hoje, eu, a Mónica, o João, a Cláudia e o Jorge, o Dr. Ataíde e o Tio Daniel conseguimos contar a história e falar desta aventura a rir. Na altura apanhámos um susto, embora não demasiado grande porque não nos sentimos em grande perigo. Daí que todos tenham repetido a dose nos Bijagós, alguns com mais e maiores sustos, e é por isso que haverá um Bijagós IV.



Bolama, a ficar ao longe. Últimas imagens até uma próxima visita aos Bijagós.

(Agradecimentos das fotos ao João e ao Jorge)

sábado, 5 de janeiro de 2008

BIJAGÓS II

É preciso estar aqui para escrever sobre AQUI. De regresso à Guiné-Bissau e ao calor (bendito), nesta altura especial de início de novo ano é tempo de desejar mais, de ter ainda mais esperança, como todos os inícios de ano em que desejamos que corra sempre melhor que o anterior. Para além dos desejos fortes mas vagos de que tudo corra bem por aqui, que seja um ano de paz e de prosperidade, ao fim de um dia de aqui voltar o que mais me vem à saudosa memória são os Bijagós.
É um desejo para 2008, voltar aos Bijagós.
É certo que nem todas as experiências foram como a que hoje conto, algumas experiências que muitos já me ouviram falar devem fazer com que esses me achem doida por querer “arriscar” de novo. Peripécias que ficam para contar em altura em que os desejos estejam menos inebriados do Ano Novo.
Por hoje a vontade é de repetir a dose de Abril de 2005. Foi a segunda vez que fui aos Bijagós. O Africa Queen é um barco senegalês que faz cruzeiros aos Bijagós mais ou menos entre Novembro e Maio. É como viajar no tempo para um lugar chamado Paraíso. Uma calma, uma paz… E a paisagem. É tão difícil escolher entre as centenas de fotos para mostrar apenas uma meia dúzia. Queria mostrá-las todas. E conseguir descrever cada um daqueles momentinhos, em que até parece que o tempo não passa, mas que infelizmente acaba.
Entrar no Africa Queen numa 6ª feira à noite em Bissau e acordar na manhã seguinte ao largo de uma destas ilhas é como um sonho mas em que mais do que se ver, se sente, se cheira, se vive.
Pela primeira vez conheci uma tabanka nos Bijagós. A ilha das Galinhas é habitada e tem várias tabankas. Numa delas um homem fazia óleo de palma, como sempre se fez. Não há por ali nada de moderno, nenhuma tecnologia. Na maior parte das tabankas nem sequer há luz, para além da do Sol, salvo alguma sortuda com gerador. Vive-se por ali como há centenas de anos atrás, essencialmente com aquilo que a terra e o mar lhes dá. Claro que a estas ilhas onde já há mais habitantes, há algumas canoas que por ali vão com alguns produtos de Bissau, e assim se fazem algumas (poucas) trocas comerciais. Mas ainda assim o isolamento é muito grande.
As máquina fotográficas são obviamente um espanto para a população, mas ficam extasiados com a imagem deles na máquina digital, amontoam-se e ficariam ali a ver-se todo o que tempo que os deixássemos. Depois ficam felizes, riem, fazem mais poses.
O João fez um daqueles truques para os miúdos, daqueles com as mãos em que parece que se separa o polegar da mão, ficaram surpreendidos, espantados e alguns gritavam o que soubemos depois que significava “feiticeiro”. Impossível não rir por essas e por outras, e impossível não chorar com a falta de certas condições, com a impossibilidade de tratar uma criança de meses doente com qualquer coisa que até poderia ser curável, noutro lugar. Só visto, só vivido.
Tempo de deixar a realidade da ilha das Galinhas que passou para o plano da memória; mais nos espera para agitar os sentimentos.
Uma das grandes vantagens de ir aos Bijagós no Africa Queen é conhecer várias ilhas. Um das fotos é da Ilha dos Cavalos mas as outras são da Ilha do Meio que ficou até hoje como a minha preferida. Ficar por ali a descansar numa praia imensa, em que para além da areia só a vegetação cerrada, selva. E quase ninguém, apenas um casal francês de reformados fazia concorrência a mim e aos meus dois amigos. A sensação é única, já o disse antes, a de “raros privilegiados”. Ao contrário de outros lugares que visito e que também me apaixonam e que depois fico a desejar viver um tempo por lá, não desejo viver nos Bijagós, apenas desejava que ficassem sempre assim, intactos, e poder lá voltar, de vez em quando, sem nunca perder aquela sensação.

FELIZ ANO NOVO!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

BIJAGÓS I

Fez ontem 3 anos que fui pela 1ª vez aos Bijagós. O Arquipélago dos Bijagós é das paisagens naturais mais bonitas da Guiné-Bissau e do Mundo. Por razões várias, ainda não há uma grande exploração turística destas ilhas, o que, para quem tem a oportunidade de as visitar dá a sensação única de ser um dos raros privilegiados a pisar solo virgem (ou quase). Há várias ilhas que são habitadas nos Bijagós, pelo povo a quem dão o mesmo nome, mas mesmo nessas às vezes não se vê ninguém. Foi o que aconteceu no passeio à ilha de Maio. Tem habitantes, já teve um hotel do qual só restam as ruínas, mas chega-se àquela praia maravilhosa e só lá estamos nós (éramos uns 8). Deixo-vos as fotos da ilha e da pescaria, e a promessa de escrever muito mais e mostrar muito mais dos Bijagós.