sábado, 8 de março de 2008
ÉS TU MULHER GUINEENSE
Já estás em pé!
És tu que na alta temperatura
Já a criança levas ao hospital
No meu tempo estás a ser mãe
Mas já foste o berço da nossa independência
Que os homens não valorizam
E continuam fingindo guardiães
És mesmo mulher guineense!
Com lágrimas de dor
Continuas a suportar a nossa continuidade
Comprando no lumo
E vendendo no beco
Sê forte mulher guineense!
A esperança de mudança que em ti plantaste
Será por nós germinada.
De Ivo José de Barros para todas as mulheres do Mundo
(Escrito em 29 de Janeiro de 2008 por ocasião do Dia de Titina Silá, também conhecido por Dia da Mulher Guineense e divulgado em 7 de Março para as comemorações do Dia da Mulher na Faculdade de Direito de Bissau)
Ivo José de Barros é aluno do 3º ano da FDB
sábado, 1 de março de 2008
PALÁCIO COLINAS DO BÓE - PALÁCIO DO POVO
Esteticamente, o edifício é completamente descaracterizado do resto da cidade e do país.
Mas a sua importância funcional ultrapassa isso.
Neste momento, por exemplo, o Plenário está reunido (entre 28 de Fevereiro e 28 de Março), e o tema agendado que mais atenção suscita é a mutilação genital feminina.
A Faculdade de Direito de Bissau tem uma ligação especial à ANP: o actual Presidente fez parte do 1º curso de licenciados da Faculdade; há dois anos, em Março de 2006, as Jornadas Jurídicas organizadas pela FDB tiveram lugar no Plenário da ANP, onde pela primeira vez proferi uma conferência; e este ano a Faculdade colabora com a Assembleia - com o apoio do PNUD e da Cooperação Portuguesa - com ciclos de formação e que culminará com a instalação e organização de um Centro de Documentação, instrumento de trabalho da maior importância para os representantes do Povo.
Para já ligada à formação em Direito, fiquei agradavelmente surpreendida por descobrir que muito se faz para o desenvolvimento e cada vez melhor funcionamento deste órgão. Decorrem, algumas já há algum tempo, formações na ANP em Língua Portuguesa (por professores do PASEG), em Francês e em Informática.
Para além da esperança que tenho no contributo para o futuro de tudo o que ali está a ser feito, o mais satisfatório são mesmo os formandos, que se esforçam imenso, acumulando as suas funções com horas e horas semanais de formações, que mostram grande motivação para aprender e vontade de participar, de terem cada vez mais conhecimentos nas mais diversas áreas. Sem qualquer obrigação, crêem apenas que o que aprenderem os vai ajudar a fazerem melhor o seu trabalho.
Acabei de conhecer mais um conjunto de pessoas que me faz sorrir.
domingo, 24 de fevereiro de 2008
BAFATÁ DESERTA
A “grandeza” da cidade deve-se com certeza à grande floresta de um dos lados da cidade, que começa numa das margens do rio Geba e parece que não acaba, e ainda ao facto de ser a cidade natal de Amílcar Cabral.
Sensações contraditórias quando visitei Bafatá: uma cidade muito tranquila, mas que parecia ter sido abandonada à pressa, como se se fugisse de algo, e o que já foi e o que é - uma avenida principal, larga, agora esburacada, inclinada em direcção ao cais e ao rio, ao fundo, sereno, a degradação das casas de estilo colonial, outrora belas e oponentes, hoje, algumas ruínas, quase todas abandonadas.
Entretanto descobri que há uns “filhos da terra” com vontade de recuperar a cidade histórica, e AQUI há mais fotos.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
AINDA VARELA
A viagem a Varela há um ano quase não era possível. Em Agosto de 2006, época de chuvas, um camião demasiado carregado atravessou uma das débeis pontes que se atravessam no caminho para Varela, sobre estreitos cursos de água. A ponte não aguentou a carga e ponte e camião foram parar à água. Só há este acesso por terra para Varela e por isso a vila ficou isolada durante vários meses - dificuldades de todo o tipo, falta de tudo. Só no final do ano, esforços conjuntos de alguns particulares que lá tinham casas – movidos também por uma imensa vontade de lá irem passar o natal e fim de ano -, e alguns apoios exteriores (de entre os quais a Cooperação Portuguesa e a ONG AD) levantaram a ponte da foto. Eu sei que parece pequena mas a sua missão é grandiosa. E lá ao lado ainda se vê uma parte do camião afundado.
Depois apareceram muitas crianças. Tinham algo de diferente de outras crianças que se aproximam de nós, um pouco por todos os locais onde passamos na Guiné. Estas pareciam mais desconfiadas, distantes, ensombradas. Tiveram por ali um bocado e soubemos então que são crianças refugiadas que se separaram das famílias no conflito de Casamansa. Tão pequeninos e tão tristes.
domingo, 17 de fevereiro de 2008
VARELA
Varela é uma localidade no Norte litoral da Guiné-Bissau. E que, ao contrário do litoral de Bissau, ainda tem praia. É certo que para chegar a essa praia a pouco menos de 200 Km de Bissau foram 7 horas penosas, mas no fim valeu a pena. Explicando as 7 horas para não afugentar todos os eventuais turistas, 3 dessas horas foram para passar a jangada de S. Vicente (fins-de-semana prolongados têm esse efeito na jangada, com a quantidade de gente que quer ir passear) e mais 2 dessas horas foram as necessárias para fazer os 50 Km que distanciam S. Domingos de Varela por um caminho inexplicável (ouve-se dizer que a estrada vai ser arranjada).
Só há um lugar para ficar em Varela: na Fá. A Fá é uma mulher amorosa e pela qual a idade não passa, tem uma daquelas juventudes eternas, raras no ser humano. Por lá o prato principal é sempre precedido de uma entrada de massa, ou não fosse o seu marido um italiano especialista na cozinha.
Foi difícil escolher algumas das fotos de Varela para vos mostrar. O resultado lógico das máquinas digitais são mais de duas centenas de fotos de 5 dias, mas a dificuldade de escolha não reside tanto na quantidade mas na diversidade.
*A praia mais afastada da vila, indo de jipe pela savana para Noroeste, é magnífica, uma imensidão de praia praticamente deserta, atravessada aqui e ali por pequenos cursos de água que se vêm juntar ao mar.
*A sudoeste da vila há mais uma praia com pouca areia; qualquer dia estender uma toalha só na alta vegetação do mato.
Como mais alguns locais da Guiné, Varela é selvagem, tudo ali é natureza; de acção humana muito pouco:
*Construção pouca.
*Luz só alguma, pouca, de gerador e só para as primeiras horas da noite (com o gasóleo a 50 Km / 2 horas de S. Domingos).
*Água… só fria.
*Trânsito? Há mais cobras que meios de transporte.
*Estradas?!? :-)
Pela paisagem, pela paz, sossego, pela Fá – vale a pena ir a Varela.
Há quem já lá vá com muita frequência, e depois da ponte de S. Vicente (a estrada S. Domingos – Varela também dava jeito) vai ser um destino concorrido. Vão ver. Para descobrir antes dessa enchente.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
OS OLHOS AZUIS DA MEIDA, E A FATINHA
Comecei por conhecer a Fatinha no primeiro ano na Guiné, e um dia puxada pela mão dos seus 2 aninhos fui encontrar os outros meninos que ali viviam; afinal ao lado da estrada principal (e aqui tão perto), disfarçadas por uma ou outra casa melhores à frente, por esteiras, carros velhos e contentores, existem muitas “casas”.
A Fatinha era órfã de uma mãe que morreu, e de um pai que para ela nunca tinha vivido. O sonho da sua velha, fraca e pobre avó era que alguém desse um melhor futuro à menina. A Fatinha era a menina que se destacava entre todos os outros meninos daquela tabanca, a pele um pouco mais clara, umas expressões mais fininhas, a única com um vestido limpo, que contrastava com os meninos e meninas nus, ou só com umas cuecas ou só com uma t-shirt, roupa velha, rota, suja, com terra pelo corpo todo.
O destino da Fatinha sempre me pareceu diferente e mais sorridente do que o de todas as outras crianças. Assim foi, passado pouco tempo a Fatinha foi adoptada por um simpático casal italiano. Há duas semanas a avó e o Papa (tio) da Fatinha mostraram-me as fotografias vindas de longe, que muito me emocionaram. Hoje a Fatinha está crescida, com cerca de 5 anos, vive numa casa bonita, apaga as velas de um bolo de aniversário numa bela sala, e brinca na neve num lindo e quente fatinho próprio para a neve. Foi assim a sorte da Fatinha.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
A JANGADA DE S. VICENTE
A ponte começou a ser construída no ano passado, apesar de pensada e desejada há muito. A evolução da obra pode ir sendo acompanhada no Caderno de África.
Com a ponte terminada, Bissau estará a pouco menos de duas horas de caminho do Senegal, facilitando a deslocação das pessoas e o transporte de mercadorias; a duas horas de Ziguinchor, com um aeroporto, e a três horas de Capítulo Skiring, também com aeroporto e umas das melhores zonas balneares da região.
Que a ponte chegue depressa!
