Regressei a Portugal há alguns dias. E confesso que nesta altura a vontade de partir se adensa.
Como quase sempre, a chuva começou a meio de Maio; este ano a primeira chuva caiu em Bissau na madrugada do dia 16. Nunca, em quase seis anos, choveu tanto desde a primeira chuva até ao dia em que, entre meados e fim de Julho, partia para férias como neste ano.
A chuva na Guiné tem um prenúncio especial. Por vezes o céu até já está cinzento há algumas horas, mas não basta. A anteceder uma chuvada está o vento, que se levanta de forma rápida e violenta. Em poucos instantes, o céu escurece um pouco mais e parece que tudo vai voar pelos ares. Partículas de terra levantam-se no ar, junto com algum lixo mais leve espalhado pelas ruas, papéis, sacos de plástico. Em poucos minutos a chuva cai, intensa, ora inofensiva, ora fatal.
Para quem tem um refúgio imediato ou transporte aqueles momentos iniciais são um espectáculo a que muitas vezes se assiste fascinado. Há algo de inebriante naquele rebuliço espontâneo e breve.
Mas depois da chuva começar a cair com força é como se só um abrigo nos salvasse.
À medida que viajava, do Centro em direcção ao Bairro da Ajuda, ia fotografando as ruas a encherem-se de água… em muitas ruas, em poucos minutos a água sobe com tal rapidez que há pessoas a fugirem com água pelos joelhos.
Desalentam-me os buracos gigantes à beira das estradas, correntes que ganham força, verdadeiras armadilhas capazes de arrastar pessoas.
Em Setembro aguarda-me mais um mês de chuva mas por agora há que aproveitar a época seca e quente deste cantinho e esperar que as genti di Guiné (em especial os de quem já sinto saudades) aguentem da melhor forma o chuvoso mês de Agosto.

E enquanto esperava comecei por me preocupar com o facto de a escola ser à beira de uma estrada tão movimentada. Como é difícil atravessar ali. A passadeira existe mas quase não se vê, e pior, pouco a respeitam. E depois viajei… Lembrei-me da minha escola primária. Da minha professora. Chamávamos-lhe Dona Antónia. Pergunto-me se a Maira um dia irá sentir pela sua primeira professora o que sinto pela minha. Que foi quem me ensinou a ler, que me ensinou tantas mas tantas coisas, como se naqueles primeiros quatro anos de escola tivesse aprendido mais de metade do que faz verdadeiramente falta aprender na vida. Nesse dia viajei até à minha sala de aula, até à minha escola primária. E pensei não só no que aprendi mas também nas nossas festinhas da escola. No dia da criança, no dia da árvore. Nesse dia cada turma plantava sempre uma árvore. A festa que antecedia as férias do Natal, com troca de prendas. E no final do ano graças à Dona Antónia tínhamos sempre pelo menos uma visita de estudo. Penso que a ela devo a forma como encarei a escola o resto da vida.
No entanto esta festa ia durar todo o dia e por isso a comida, em quantidade, estava a ser preparada numa casa vizinha. Pelo tamanho das panelas adivinhava-se uma grande festa.
Ainda nessa escola da Carlita a dada altura passei numa das salas e as crianças gritavam felizes “1 de Junho, dia da criança, 1 de Junho, dia da criança” (um vídeo que, porque a net não ajuda ou as habilidades informáticas são demais, não consegui colocar aqui), e quando as vi assim pareciam os seres mais felizes da terra. Uma alegria tão grande que era impossível não ficar contagiada.
Mais adiante uns colchões caricatos: palha forrada com grandes sacas que antes foram de arroz ou farinha.
Desde a última vez alguma coisa mudou. O antigo Palácio do Governador, que me impressionou na primeira visita pelo total abandono, está agora em obras. Aparenta ter sido uma boa residência em tempos, convidativa, talvez o volte a ser no final das obras.

Resquícios da Nova Lamego, inscrita ainda na parede de uma loja que dá por esse nome, nas casa de dois andares, uma delas de varanda em toda à volta do 1º andar, que albergam a Farmácia Central e o BAO (Banco), na igreja e na antiga estação C.T.T.


Em menos de uma hora nada mais há para ver nesta pequena cidade de ruas de terra vermelha. Almoçamos galinha à cafreal (dizemos cafriela) no “Pó di Terra”.
A caminho da saída passamos em frente daquela que em 2005 era a discoteca Baga-Baga, “a não perder” – disseram-me quando lá fui a primeira vez.
Saímos com uma sensação de “ficou visto”, de quem gostaria que fosse mais mas não é, esta cidade que ouvimos os guineenses dizer em Bissau que é a cidade dos burros, a cidade das bicicletas ou a cidade das motas. De tudo isto se vê um pouco nas ruas. Mas só um pouco.
Para quem há cinco anos dormiu no Vision, então único hotel de Gabu, este Hotel HBC parece ter dez estrelas mais. Não fico com ideia de voltar nos próximos tempos mas merece ser divulgado. 
Também era possível encontrar pelo menos um Balanta na multidão de palmo e meio. Aquele menino de barrete vermelho usa-o como símbolo da etnia mais numerosa do país e que ficou mais conhecido pelo seu uso habitual pelo político e ex-Presidente da República Koumba Yalá.
A meio da manhã o calor apertava e este menino, que simboliza a tarefa de descascar o arroz manualmente, faz uma pausa para beber água. Não fosse o arroz a base de alimentação do povo guineense.
Quem também se fez representar foi a
Mais algumas fotos e votos de um

Tem um espaço para brincar, pátio, parque infantil, um espaço limpo, arranjado e equipado. Um espaço pensado verdadeiramente para as crianças brincarem, muito, muito raro em Bissau.
Tudo isso só é possível graças às ajudas externas. Funciona com o apoio da
Aqui é impossível não prestar a mínima homenagem ao
Na foto da direita a irmã Isabel com a Mariama, a primeira criança a ser acolhida na Casa Emanuel e que foi adoptada pela irmã Isabel. Adoptou pelo menos mais cinco mas todas as crianças da Casa Emanuel lhe chamam Mãe.
Os mais crescidos ajudaram a descarregar e sob o olhar agradecido da irmã Isabel tudo foi arrumado no bloco dos escritórios a aguardar a semana seguinte.
Espero que ontem, dia de Natal, o lanche tenha sabido bem. Mas só na primeira semana de Janeiro volto a Bissau e estou curiosa para ouvir contar como foi.
Este conjunto de fotos foi tirado no ano passado, na visita da Margarida à Guiné, que ficou encantada com aquelas crianças, pegava em todas, e nenhuma a queria largar. No centro à esquerda eu com o Gabriel, o meu menino favorito do Orfanato.
Este último conjunto de fotos foi tirado numa visita feita em Junho com algumas amigas, a Ana Sofia, a Fátima e a Teresa, que no ano lectivo anterior se encontravam em Bissau e a quem fizeram chegar brinquedos que nesse dia levámos ao Orfanato. Foi também um dia de grandes alegrias naquela Casa.