terça-feira, 27 de novembro de 2007

ROSTOS BISSAU I

Rostos Bissau era a segunda escolha para o nome deste blog. A expressão nasceu nas conversas entre amigas quando, aqui em Bissau, tinha lugar alguma festa ou evento, e brincávamos que devíamos criar uma revista tipo “Caras”. Só que ao contrário desse tipo de revistas, a minha ideia de criar um blog com esse tema era dar a conhecer os rostos que fui conhecendo em Bissau, as histórias por trás dos rostos. Não estou a falar de VIP´s mas daqueles que para mim têm sido e são Muito Importantes na experiência que tem sido viver nesta terra.
Hoje apresento-vos a Nené. A Nené é a minha melhor amiga guineense, às vezes mais do que amiga, é uma mãe africana que aqui tenho. Para além de tratar de tudo aqui por casa, é uma grande companhia. Almoçamos juntas todos os dias da semana e conversamos sobre muitas coisas, sobre o dia-a-dia, trocamos confidências. Muitas histórias terei para contar da Nené mas esta aconteceu há cerca de duas semanas, foi marcante e traduz um pouco do que é a vida em Bissau.
Estávamos a almoçar e na TV estava a dar o Repórter África. Uma das notícias era sobre a falta de água em Bissau e como estava a afectar a população. Mostrava pessoas em filas de espera enormes para encherem um “bidon”, em locais onde havia algum poço, furo ou semelhante, pessoas que se tinham levantado de madrugada para conseguirem alguns litros de água, e que se queixavam daqueles que se aproveitavam de estar a guardar aqueles locais para cobrarem a água (sem qualquer direito legal para o fazerem). Perguntei à Nené, retoricamente, se também não tinha água em casa. E como é que o problema da falta de água a estava a afectar. Se não lhe pergunto ela não conta as dificuldades, não se queixa. Disse-me então que nesses dias não tem havido água perto de casa e que tinha que andar muito para procurar água, e nessa “manhã” tinha-se levantado às 4:30 para ir procurar água mas não tinha conseguido. Despachámo-nos o mais que pudemos para ela poder ir para casa descansar.
É difícil para quem, como todos nós, abre a torneira várias vezes ao dia, e lá está. Não pensamos sobre isso. Não ter água corrente em casa implica ir buscar água que servirá para tudo: cozinha, casa-de-banho, se pensarmos nas quantidades que é preciso para tomar banho, a quantidade de vezes que lavamos as mãos, que vamos à casa-de-banho, que lavamos comida, louça… é muito difícil imaginar. Quanta água será precisa por dia? Falta dizer que as necessidades de água aumentam proporcionalmente ao aumento do número de pessoas em casa. E aqui… a Nené, o marido, 4 filhos e uma criança pequena órfã de uma mãe que era vizinha da Nené e da qual esta toma conta.
Que chato, que difícil é a vida quando o sinal da TV vai abaixo, a luz ou a água faltam, por 5 minutos que seja.
Não sou moralista nem idealista, nunca fui. Se preferia que as coisas fosse diferentes? Acima de tudo sinto-me grata por conhecer a vida como ela é. Ter a oportunidade de conhecer outras realidades. De inicialmente ter pensado “como é que é possível?” mas ser de facto possível. Com pessoas que sorriem todos os dias.

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