Quando cheguei a África, aos 25 anos, durante algum tempo vivi iludida de que tudo ia melhorar aqui, que ia fazer a diferença. Parecia tão fácil ajudar alguém. E toda a gente precisava de ser ajudada. Não demora assim tanto tempo a perceber que não se vai mudar o mundo. A desilusão tem sido quase uma constante na Guiné.
De 2005 para 2006 alguma coisa pareceu mudar. Foi a ilusão do primeiro ano aliada a alguns melhoramentos, uma maior limpeza da cidade, maior frequência de luz da rede pública, um povo cheio de fé numas eleições e num novo Presidente eleito.
Os anos que se seguiram não foram fartos de alegrias e até culminarem, no final do último e neste em que nos encontramos, numa profunda instabilidade, insegurança, tristeza, descrença.
Ouvi várias vezes a minha mãe dizer que quem precisa, precisa sempre, quem dá não pode dar sempre. É a pessoa mais generosa que conheço e a minha tinha Alcina, sua irmã, também. De um modo geral é feitio de irmãos.
Por isso quando algumas pessoas que viam o blog me começaram a perguntar como podiam ajudar fiquei a pensar: ajudar como? Há várias campanhas de recolha de fundos e bens que são enviados para aqui, e aconselho sempre a participarem nessas.
Mas uma das vontades mais firmes de querer ajudar partiu da Lena, e pensámos e falámos, e concluímos que era possível aliar a sua ajuda a um projecto muito interessante. A Lena cria peças lindíssimas que vende no Atelier ao meu gosto e combinámos que eu enviaria os panos mais apropriados que conseguisse no Bandim e ela criaria peças com esses panos e o dinheiro realizado com a venda dessas peças serviria para ajudar alguém aqui na Guiné. Assim começou esta semana a campanha Afric-Ana + Atelier ao Meu Gosto.
À Lena cabe um trabalho que nem imagino e que pode ser imenso mas que ela parece fazer com muito prazer, a mim coube-me também uma tarefa difícil mas ao mesmo tempo aprazível. Difícil é escolher os beneficiários da ajuda, não falta que precise, e ao mesmo tempo decidir a forma de ajudar.
Entregar dinheiro a alguém porque é pobre é, a meu ver, uma ajuda com pouco retorno. Não significa que aqui ou ali não se dê dinheiro a quem pede, é impossível resistir quando alguém nos diz “tenho fome”. Mas andar por aí a distribuir dinheiro que alguém me enviasse nunca foi questão que eu colocasse.
Sem prejuízo de a ajuda poder ser alargada a outros destinatários ou ser feita de outra formas, hoje cumpre-me divulgar os primeiros destinos das receitas obtidas e a obter.
Há uns dias apresentei-vos a Menô e a Ondinha. Um dos seus sonhos é fazer um curso de informática. Acabaram de concluir o 9º ano e estão agora de férias. Informei-me e o melhor sítio para fazer um curso de informática é o SITEC. Uma empresa que vende fornecimento de serviço de Internet e materiais informáticos e respectiva manutenção. Assim, a campanha irá pagar a inscrição e propina de cada uma num curso de iniciação à informática, onde aprenderão a trabalhar com programas básicos, mas, de certeza, as suas preferências irão recair na aprendizagem do acesso à Internet.
(Cada nível de curso de 2 meses custa 35.000 FCFA ou 53,35€)
O outro destino que foi também já definido mantém esta linha de pensamento de dar formação e ajudar a construir um futuro de conhecimento.
Porquê a Meida e não outra criança qualquer?
Pelos seus lindos olhos, em primeiro lugar. É um cliché que aqui fica bem. Mas também porque em Setembro entra para a 1ª classe.
Temos muitas dúvidas em relação a este caso. Comprometemo-nos este ano mas queremos tentar o mais que pudermos fazê-lo todos os anos seguintes de escola.
A escola escolhida fica do outro lado da estrada em relação à casa onde habita. Chama-se Escola Privada Professor Doutor Cavaco Silva. É considerada uma das melhores escolas privadas da cidade. Tem boas condições e as aulas funcionam com regularidade, desde a pré até à 11ª classe (última do currículo). Informaram-me que o actual Presidente português teve conhecimento desta escola e com o seu apoio será criada uma biblioteca no próximo ano lectivo.


Esta ajuda já foi combinada com a família da Meida na última visita. Cresceu desde a última foto, AQUI. Como a família da Meida é muito pobre a ajuda à Meida inclui roupa para ir arranjadinha para a escola, onde estudam alguns meninos de famílias com mais posses, e os materiais escolares, livros, cadernos, canetas, lápis e outros.
(Entre inscrição e propinas serão pelo menos 82.000 FCFA ou 123,47€)
Para terminar, faltam-me palavras suficientes para agradecer a imensa bondade da Lena, sem a qual nada disto se concretizaria, e agradeço mais uma vez às pessoas que também têm ajudado de todas as formas, em especial à minha mãe e à minha tia Alcina e às pessoas que algumas vezes lhes entregaram roupas e brinquedos para eu trazer e oferecer.
Aqui está parte da matéria-prima que foi enviada e que serve para a confecção dos sonhos destas meninas!

