segunda-feira, 13 de abril de 2009

ANDRÉ, AS MÃOS DE UM CARREGADOR

Quando aterrei em Bissau a primeira vez, há quase quatro anos e meio, foi como se estivesse à espera que eu chegasse, como passou a estar depois durante muito tempo. O André estava à saída do aeroporto, à espera de apanhar as malas de alguém que depois carregaria até ao táxi ou a uma viatura no estacionamento.
Ele e outros meninos levaram as nossas bagagens até à carrinha e na altura os colegas de projecto que nos receberam trataram das gorjetas. No meio da confusão que era o aeroporto e a saída, na época às sextas-feiras à tarde, acho que não identificaria nenhum dos outros rapazes. Só o André.

Era deste modo, carregando malas de passageiros do então único voo semanal da TAP de Lisboa para Bissau, à frente do Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, que o André conseguia alguns trocos para ajudar a família. De todas as vezes que viajei ele me via e perguntava quando voltava, não se esquecia da data e quando eu voltava lá estava ele, e eram as minhas malas que ele levava (bom ou as dos colegas quando estávamos todos juntos e as bagagens à mistura). Foi assim até ao ano passado. Depois o horário do vôo mudou.

Hoje a TAP opera três vôos por semana de Lisboa para Bissau, mas isso não fez com que o “negócio” do André se tornasse mais lucrativo. Todos os vôos são agora de noite, aterram em Bissau cerca das 2 horas da madrugada, e tal como o André a maior parte dos carregadores desapareceu, receosos da noite escura de Bissau. Não é só a questão da segurança, mas sobretudo a falta de luz e de transportes toca-toca para regressarem às suas casas de forma económica.


Agora é costume encontrá-lo à frente de um dos Supermercados Bonjour ou Bodem, numa das mais movimentadas ruas do centro da cidade.
Cada vez que apareço disputa com o Amadu, quem carrega os meus sacos das compras. Caminha o mais próximo de mim que é possível e assim que compro alguma coisa e a vendedora me estica o saco, o André apanha-o primeiro. Quando tem várias coisas pede-me a chave do jipe, dou-lha e vai todo contente meter os sacos no jipe, volta. Não me entrega a chave até eu fazer todas as compras e ele ter levado todos os sacos.

Em Novembro o André foi operado às mãos por uma equipa de médicos holandeses que estiveram no Hospital Simão Mendes. Desde que o conheci, as mãos que estende com entusiasmo para nos cumprimentar estão deformadas. Inicialmente pensei que tivesse nascido com uma malformação mas aqui há uns tempos perguntei-lhe como tinha sido. Com cerca de 5 anos, numa apanha de caju, colocou as mãos numa bacia para retirar umas chaves que lhe tinham caído, e queimou-se num qualquer liquido ácido ou corrosivo. O que sempre me impressionou foi a facilidade com que carrega tudo, malas, caixas, sacos, quando alguns dos seus dedos nem estão completos.

Não tem a mesma facilidade na escola, diz que devido à sua dificuldade para escrever. Tem 20 anos e frequenta a 6ª classe mas é evidentemente inteligente. Para ele o mais importante é pagar a escola e ajudar a família, o pai já faleceu, e além dele e da mãe existem mais 6 irmãos.

Quando lhe tirei a foto ainda andava com ligaduras. Disse-lhe que ia escrever sobre ele e que ia colocar na internet. Disse que me queria oferecer coconetes. E no sábado seguinte veio ao Bairro trazer estes 4 côcos. Disse que era um para mim, e um para cada um dos meus colegas (a quem ele também faz questão de levar as compras).
Tem no seu quintal côcos e mandiocas e oferece-os aos amigos. Diz que não vende porque aos amigos as coisas não se vendem, oferecem-se. Muito raramente também pede que lhe ofereçamos algo que o ajude, por exemplo a pagar as propinas da escola (3€/mês). Mas a sua generosidade é largamente mais vasta do que a dos amigos e por isso é impossível recusar-lhe algum pedido que é feito de muito tempo a tempo.

4 comentários:

MEB disse...

Um texto com ritmo que oferece uma história linda. Gostei muito de a ler e, se for preciso fazer algum pézinho de meia para o futuro de André, peço-lhe, pf.que conte comigo. Gostava muito de ter ajudado o meu empregado Magna (Balanta) mas a vida levou-me para meio mundo, vencendo mil barreiras e, nunca consegui encontrar o meu fiel Magna que está no coração de toda a família Bento. Força André.
Ana, continue a dar-nos pedaços de vida da Guiné, uma preciosidade que algumas ganâncias querem destruir.

Mário Linhares disse...

Obrigado por partilhares esta história.
De facto a nossa vida é feita de pequenos nadas e muitas vezes achamos que nem temos de os escrever sendo eles tão despidos de factores fantásticos. Mas é o registo que os torna imortais! Que permite tirá-los do anonimato, dando-lhes a importância devida.

Passei por essa experiência em Agosto passado. De facto havia apenas um senhor mais velho (35 anos?) a ajudar a carregar as malas à saída do aeroporto. A hora era avançada (o avião chegou atrasado) e de certeza que ele tinha carro para voltar para casa...

Anónimo disse...

este bloge está muito bem feito axim xabeox komo e a gine e tu kom este trabalho todo ke e muito giro e ax tuax viagens devem xer fantasticas.
beijinhox grandex da prima marta ,prima carla,prima gracioxa,primo sergio e primo telmo

* Atelier Ao Meu Gosto * disse...

Quero ajudar! Quero ajudar quem tu aches que neste momento precisa.
Escreve-me quando puderes para atelieraomeugosto@gmail.com

Lena