sexta-feira, 19 de setembro de 2008

JUNHO É PASSADO

Junho foi dos meses mais difíceis dos quase quatro anos de Guiné (Julho também). Mas como sempre acontece há também coisas boas para recordar e mesmo sobre algumas menos boas é mais fácil falar.
Dir-se-ia que o Euro 2008 não foi famoso para Portugal, mas em Bissau, nas vésperas do dia 7 de Junho, dia em que começava o Euro e em que na Guiné-Bissau se assinalavam os 10 anos do início de uma guerra entre a Junta Militar e as forças leais ao então e agora Presidente Nino Vieira, os jornais transbordavam de páginas sobre o Euro, sobre o futebol, as equipas, os jogadores mas nada sobre aquele acontecimento trágico. Milhares de mortos, famílias ainda hoje afastadas, fome, dor, ninguém esqueceu. Desde então o país ainda não recuperou. Mas um jornal diário, generalista, onde a edição habitual não ultrapassa as 20 e poucas páginas, conseguia dedicar 12 dessas ao futebol e apenas meia página a uma breve notícia sobre o conflito armado.
Fora isso. Os guineenses adoram futebol e a força e amizade com que torcem pela Selecção Portuguesa enche-me a mim e muitos de alegria.

Há mais episódios desportivos onde os guineenses torcem por nós e nós por eles. Também no início de Junho decorreu o II Torneio de Tennis da Cooperação Portuguesa, em Bissau.
Para quem gosta de ir ver os jogos, a disputa entre os amigos e rivais (?! só se for mesmo na modalidade) Osvaldo e Manuel é imperdível. Encheu-me de orgulho o 8º lugar conquistado pelo Osvaldo, o melhor entre os portugueses. Mas a final do torneio entre o Peti e o Bene não fica atrás de nenhum Open do Estoril ou Roland Garros, são profissionais a sério. Pessoalmente até prefiro o Estádio Lino Correia, em Bissau, onde o ambiente de desportivismo é acolhedor e contagiante.



Menos desportivo e mais académico foi mais um momento de entrega de diplomas a licenciados na Faculdade de Direito de Bissau. E aqui estou eu e o Yasmine num dia que me emocionou ver receber os diplomas numa cerimónia pomposa àqueles que já foram meus alunos. É das melhores sensações do mundo sentir que se fez parte da formação de alguém, que ensinámos alguém, que aprendeu connosco e que aprendemos com eles. O Yasmine foi o melhor licenciado do ano dele, e em seguida foi meu assessor em duas cadeiras novas do curso, tarefa nada fácil. Foi um colega e amigo, que agora está mais afastado por excelentes motivos profissionais. Conseguiu um emprego maravilhoso e merecido que me enche a mim e a todos na faculdade e no projecto de orgulho.

Com tanta emoção, as chatices com a falta de combustível até parecem menores.
Se às vezes no conforto das nossas casas (aqui) nos esquecemos de onde estamos, a verdade é que nos devíamos lembrar mais vezes, e foi isso que aconteceu durante várias semanas. Às vezes falta a gasolina, acaba, não há à venda durante uns dias. Mas dessa vez o problema foi com o gasóleo, alguma falta mas essencialmente divergências entre as gasolineiras e o Governo – sim, aqui como em Portugal, como noutros países.
As filas intermináveis ao pé das gasolineiras eram o problema menor; ao racionar do combustível do gerador é que é difícil habituarmo-nos.
Pois é, regra geral não há luz em Bissau, luz da rede, mas por todo o lado proliferam geradores altamente poluentes e barulhentos mas que nos permitem estar por exemplo aqui, no computador. Infelizmente a dependência pelo gasóleo é muito grande.
Estar então algumas horas por dia sem luz, sem computador, sem ar condicionado, sem frigorífico, sem água, deixou-me muitas vezes triste, às vezes desesperada, mas com uma admiração cada vez maior por um povo que vive sem nada disso, dias após dia, e ainda assim sabe viver feliz.