quinta-feira, 29 de novembro de 2007

BISSAU, o depósito da água e os amigos


A dada altura tinha formado a ideia de que os melhores amigos se fizeram no tempo de escola e sobretudo na idade da infância. Os melhores dos melhores na escola primária, os melhores no liceu e os bons na faculdade; não a pensar nas qualidades deles, mas na forma como os escolhia em cada uma dessas fases da vida. Com muito menos inocência à medida que os anos passavam, procurando cada vez mais pessoas com os mesmos interesses, gostos.
Mas a verdade é que ao longo da vida e, agora acredito que, até sermos velhinhos, vamos sempre fazer amigos, bons amigos e ainda melhores amigos.
Este post é dedicado a um melhor amigo, uma amizade que cresceu em Bissau.
João, de muitos episódios que passámos e que nunca vou esquecer, os mais felizes, os mais divertidos e até mesmo alguns menos felizes, recordo hoje o primeiro dia em que subimos ao depósito da água.
O depósito da água a que me refiro fica num local um pouco elevado, e para além disso o próprio é mesmo bastante alto. Não sei quantas escadas subimos mas muitas. Bem, e para além de um pouco de adrenalina na subida, a emoção lá em cima também é grande: conseguimos a melhor vista de cima sobre a cidade. É essa vista que hoje partilho com todos. Nesse dia, os aventureiros ao topo do depósito foram mais, também lá estavam a Mónica, o Bessa e a Isabel. Mas nós voltámos lá outras vezes. E além disso as ideias mais “loucas” eram sempre tuas. Grandes aventuras: a subida ao depósito da água, os banhos no “charco”, a volta de Bissau, a Agribissau, a “Bragança” a caminho de Bolama. Um amigo feito na idade adulta pode mesmo ser um melhor amigo.
Vista desta perspectiva a cidade é mais bonita, as árvores enormes são mais evidentes, muito verdes, vê-se o mar ali tão perto. Mas mais de perto, e ao nível da terra há coisas menos bonitas, com tempo para serem vistas.
É como tudo na vida: à primeira vista nem tudo é o que parece, e nem tudo o que luz …


(O ilhéu do Rei em frente a Bissau)


(Ao fundo: a ANP)

( Ao fundo o Palácio)

(As torres da Catedral)



terça-feira, 27 de novembro de 2007

ROSTOS BISSAU I

Rostos Bissau era a segunda escolha para o nome deste blog. A expressão nasceu nas conversas entre amigas quando, aqui em Bissau, tinha lugar alguma festa ou evento, e brincávamos que devíamos criar uma revista tipo “Caras”. Só que ao contrário desse tipo de revistas, a minha ideia de criar um blog com esse tema era dar a conhecer os rostos que fui conhecendo em Bissau, as histórias por trás dos rostos. Não estou a falar de VIP´s mas daqueles que para mim têm sido e são Muito Importantes na experiência que tem sido viver nesta terra.
Hoje apresento-vos a Nené. A Nené é a minha melhor amiga guineense, às vezes mais do que amiga, é uma mãe africana que aqui tenho. Para além de tratar de tudo aqui por casa, é uma grande companhia. Almoçamos juntas todos os dias da semana e conversamos sobre muitas coisas, sobre o dia-a-dia, trocamos confidências. Muitas histórias terei para contar da Nené mas esta aconteceu há cerca de duas semanas, foi marcante e traduz um pouco do que é a vida em Bissau.
Estávamos a almoçar e na TV estava a dar o Repórter África. Uma das notícias era sobre a falta de água em Bissau e como estava a afectar a população. Mostrava pessoas em filas de espera enormes para encherem um “bidon”, em locais onde havia algum poço, furo ou semelhante, pessoas que se tinham levantado de madrugada para conseguirem alguns litros de água, e que se queixavam daqueles que se aproveitavam de estar a guardar aqueles locais para cobrarem a água (sem qualquer direito legal para o fazerem). Perguntei à Nené, retoricamente, se também não tinha água em casa. E como é que o problema da falta de água a estava a afectar. Se não lhe pergunto ela não conta as dificuldades, não se queixa. Disse-me então que nesses dias não tem havido água perto de casa e que tinha que andar muito para procurar água, e nessa “manhã” tinha-se levantado às 4:30 para ir procurar água mas não tinha conseguido. Despachámo-nos o mais que pudemos para ela poder ir para casa descansar.
É difícil para quem, como todos nós, abre a torneira várias vezes ao dia, e lá está. Não pensamos sobre isso. Não ter água corrente em casa implica ir buscar água que servirá para tudo: cozinha, casa-de-banho, se pensarmos nas quantidades que é preciso para tomar banho, a quantidade de vezes que lavamos as mãos, que vamos à casa-de-banho, que lavamos comida, louça… é muito difícil imaginar. Quanta água será precisa por dia? Falta dizer que as necessidades de água aumentam proporcionalmente ao aumento do número de pessoas em casa. E aqui… a Nené, o marido, 4 filhos e uma criança pequena órfã de uma mãe que era vizinha da Nené e da qual esta toma conta.
Que chato, que difícil é a vida quando o sinal da TV vai abaixo, a luz ou a água faltam, por 5 minutos que seja.
Não sou moralista nem idealista, nunca fui. Se preferia que as coisas fosse diferentes? Acima de tudo sinto-me grata por conhecer a vida como ela é. Ter a oportunidade de conhecer outras realidades. De inicialmente ter pensado “como é que é possível?” mas ser de facto possível. Com pessoas que sorriem todos os dias.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

FDB I

O meu primeiro post é uma simbólica homenagem à Faculdade de Direito de Bissau (FDB). Foi por ela existir que vim parar à Guiné-Bissau. A FDB resulta de um acordo de cooperação com a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, assinado em 26 de Novembro de 1990. Sim, faz hoje 17 anos. É um projecto financiado pelo IPAD e com grande projecção no país.
Começou tudo em Outubro de 2004, quando fui seleccionada para vir dar aulas para a FDB. Esta é hoje a “menina dos meus olhos” neste país (entre tantas outras coisas boas). É com muito orgulho que pertenço a esta instituição, e que a dou a conhecer a todos. Algumas fotos e o site institucional: http://www.fdbissau.com/