sábado, 26 de dezembro de 2009

FESTAS DE NATAL II

AMIGAS DA CASA EMANUEL

Este tem sido um dos posts muito adiados. Não é fácil e continuo a não saber o que vou escrever.

Desde o primeiro ano em Bissau que vou ao Orfanato Casa Emanuel. A primeira vez as minhas colegas que estavam em Bissau há mais tempo levaram-me, a Mónica, a Cláudia e não me recordo se mais alguém nesse dia. Voltei lá muitas vezes sozinha. Voltei lá várias vezes com visitas para que conhecessem. Mas é sobretudo quando vou sozinha que me sinto invadida por um turbilhão de sentimentos, de tal forma que às vezes ando dias e semanas a adiar uma visita. Fico dividida entre o “coitadinhas daquelas crianças”, expressão que mais oiço quando falo no Orfanato pela primeira vez a alguém, ou que sorte ou alegria daquelas crianças por poderem estar onde estão. Não há maneira de algum dia concluir qual o lado que tem razão.
Algumas das crianças são verdadeiramente órfãs, outras a mãe morreu no parto ou após e os pais ou família vão ali entregá-las, outras até podem ter pai ou mãe vivos mas são abandonados por diversas razões que não cabe a ninguém julgar, alguns são deficientes, muitos ou todos, terão melhor vida ali, mais cuidados, mais amor.
Acima de tudo, como o Joel e a Joana dizem, a Casa Emanuel é um pequeno oásis em Bissau.
Tem uma escola com as melhores salas de aula que existem no país, desde a 1ª à 6ª classe.
Tem um espaço para brincar, pátio, parque infantil, um espaço limpo, arranjado e equipado. Um espaço pensado verdadeiramente para as crianças brincarem, muito, muito raro em Bissau.
Tudo isso só é possível graças às ajudas externas. Funciona com o apoio da Cooperação Portuguesa e de diversas entidades, como a RTP.
Mas mais do que os apoios externos, as imensas possibilidades de uma vida com mais qualidade e carinho só são possíveis graças à irmã Isabel e à irmã Eugénia. São fantásticas. Assim como todos os voluntários que por lá passam. A ajuda deles é preciosa. Cuidar de mais de 140 crianças (em 2005 eram quase 100, o número aumenta consideravelmente todos os anos) não é tarefa fácil e a ajuda de todos os braços disponíveis é bem vinda. Aqui é impossível não prestar a mínima homenagem ao Joel, que tem sido incansável na recolha de tudo o que é necessário no Orfanato e de quem às vezes oiço falar em visitas ao Orfanato de forma ternurenta como: foi o Joel que trouxe! Foi o Joel que arranjou na última vez que cá esteve. E da Joana, que deixou tudo para se dedicar como voluntária na Casa Emanuel durante dois meses este ano. Vivia lá e passava todo o dia a cuidar das crianças, a educá-las a fazer actividades com elas. É brilhante!
Na foto da direita a irmã Isabel com a Mariama, a primeira criança a ser acolhida na Casa Emanuel e que foi adoptada pela irmã Isabel. Adoptou pelo menos mais cinco mas todas as crianças da Casa Emanuel lhe chamam Mãe.

A duas semanas do Natal, mesmo que em Bissau não o parecesse, escrevi às minhas gajas. Cada uma destas minhas amigas, uma amizade nascida na universidade, é especial e diferente. Ao fim de doze anos, e depois de há cerca de sete cada uma ter seguido o seu caminho, continuamos a manter uma relação de amizade que não procuramos explicar mas que nos une, que nos faz querer não perder pitada da vida de cada uma. Mesmo quando faltámos o casamento de uma ou os primeiros dias do primeiro filho de outra é como se estivéssemos estado sempre lá e recuperamos cada momento afastadas num encontro em que todas falamos ao mesmo tempo e parece que nunca estivemos três meses sem nos vermos.
Cada vez que regresso a Portugal, ainda que por um curto período de tempo, um encontro com vocês é obrigatório, é quase sempre a primeira coisa a marcar na agenda para aqueles curtos dias.
Não foi surpresa mas foi com grande alegria que recebi as respostas de cada uma à minha ideia. Juntas, íamos tornar mais doce o lanche de Natal das crianças da Casa Emanuel em Bissau.
Assim, depois de um orçamento indicativo que previa latas de leite em pó para os mais pequenos e sumos Compal, bolachas e bolos diversos para os mais crescidos, fui às compras e, em seguida, com a mala do carro cheia de coisas boas, em direcção ao Orfanato.
Os mais crescidos ajudaram a descarregar e sob o olhar agradecido da irmã Isabel tudo foi arrumado no bloco dos escritórios a aguardar a semana seguinte.
Espero que ontem, dia de Natal, o lanche tenha sabido bem. Mas só na primeira semana de Janeiro volto a Bissau e estou curiosa para ouvir contar como foi.

Para todos continuação de Boas Festas e em especial estes votos com uma imensa expressão de agradecimento à Elsa, à Guida, à Inês, à Rita e à Filipa.
Este conjunto de fotos foi tirado no ano passado, na visita da Margarida à Guiné, que ficou encantada com aquelas crianças, pegava em todas, e nenhuma a queria largar. No centro à esquerda eu com o Gabriel, o meu menino favorito do Orfanato.
Este último conjunto de fotos foi tirado numa visita feita em Junho com algumas amigas, a Ana Sofia, a Fátima e a Teresa, que no ano lectivo anterior se encontravam em Bissau e a quem fizeram chegar brinquedos que nesse dia levámos ao Orfanato. Foi também um dia de grandes alegrias naquela Casa.

No último ano foi construído um pequeno hospital na Casa Emanuel, a pensar não só nas crianças mas também nos seus nascimentos e nas suas mães, por isso grande parte é uma maternidade. A próxima campanha Coração na Guiné pretende recolher materiais para o seu funcionamento. Visite o site e apoie.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

FESTAS DE NATAL I

NA TABANCA DA MAIRA

A meio de Dezembro em Bissau não se respira Natal. Não está frio, não se enfeitam árvores, não há iluminação de Natal, nas ruas à noite nem sequer há luz, não há montras cheias de motivos de Natal, ou cores verde, vermelho, branco ou dourado. Nessa altura as saudades de casa aumentam. Não é pelo frio, pelas luzes, pelas montras ou pelas cores.
Em Bissau, poucas pessoas festejam o Natal, poucas pessoas seguem as tradições a que me habituei em todos os Natais da minha vida. E as melhores tradições, não só para as crianças mas sobretudo para elas, são os doces e as prendas. E em Bissau poucas crianças recebem prendas de Natal ou comem doces.
Ao longo dos últimos meses a Maira recebeu algumas prendas: livros, chinelos, mochila, cadernos. E os meninos da sua tabanca miravam com olhares de desejo as suas coisas.
Ainda havia tanta coisa lá em casa. Alguns brinquedos oferecidos por uma senhora para quem o meu pai trabalhou, algumas roupas compradas de tempos a tempos no Bandim e outras oferecidas pela mãe, pela Lena e aqui e ali. Tudo à espera de dias destes.
Uns dias antes, numa das vezes que fui levar a Maira, recolhi os dados, nomes e idades das crianças daquela tabanca. Poderia faltar um ou outro mas ao fim de um bocado a lista continha 12 meninos com idades entre o 1 ano e os 12 anos e 31 meninas, sendo que as últimas sete já eram crescidinhas, entre os 16 e os 19 anos, e até a Amélia de 23 anos, mãe da Sandira de 5 meses teve lugar na lista, pois estas ajudaram a preenchê-la.

Organizei o lanche, bolos, bolachas e sumos. A primeira parte uma excitação com alguma facilidade de gerir. Tudo muito ansioso por receber um saquinho com o seu nome, e até se aguentaram calmos à volta da mesa onde era preparado o lanche. Tudo a postos e os saquinhos foram sendo distribuídos à volta da mesa, chamando os nomes das crianças. A exaltação aumentava. As outras crianças queriam agarrar a prenda das que iam recebendo, e por isso cada uma que recebia agarrava a sua prendinha contra si sem a retirar do saco. No final da distribuição das prendas, a distribuição do lanche, que primeiro decorreu de forma quase ordeira, com direito a fila e tudo, mas rapidamente a confusão se instalou e tudo desapareceu num abrir e fechar de olhos.

A Lote ajudou a levar as caixas com as prendas. A Miriam com apenas 1 mês.
A Joaninha e a Uassila com 4 anos.
No final quando sobrava um pacote de bolachas a imagem era esta: mais mãos estendidas do que bolachas para dar.

Foi a festa de Natal possível para crianças que sabem muito pouco do Natal mas que sentiram naquele dia um bocadinho daquilo que muitas crianças sentem no dia de Natal: felicidade e desejo de que Natal fosse todos os dias.

Boas Festas!

domingo, 6 de dezembro de 2009

SERIFO, EX-MÚSICO, GUARDA DE DIA, A CERIMÓNIA GDUBA E O SACALÁ

Em Junho o Serifo veio ter comigo. Muito abatido. Queria autorização para tirar férias. Não me cabe a mim esse tipo de autorização mas por mais que lhes diga (na faculdade) insistem em achar que eu é que mando. Não fazem quase nada se não lhes disser e perguntam-me o que eu nem sei nem tenho que saber.
Não sabe quantos dias de férias precisa. A razão do Serifo para precisar desses dias é que tem de ir fazer a “cerimónia de lavagem”.

O Serifo é de Buba no Sul da Guiné. Tem 50 anos. Toda a sua família se encontra em Buba e ele vai até lá sempre que pode. Essa família inclui 2 mulheres, 9 filhos e um pai de 99 anos, que contradiz todas as estatísticas da esperança média de vida deste país. É o homem mais velho de Buba e já foi entrevistado na rádio.

No entanto a mãe do Serifo já morreu e depois de a mãe falecer ele devia fazer a cerimónia de lavagem do corpo Gduba. É essa a razão pela qual ele não se anda a sentir bem. A mãe era de etnia biafada e o pai da etnia mandiga. Se perguntarmos ao Serifo qual a sua etnia diz, em primeiro lugar, que é biafada mas segue as tradições de ambas as etnias.

Segundo a etnia biafada há sempre um contrato entre cada pessoa e o dono do mato, o Sacalá,e quando morre algum familiar como o pai ou a mãe é necessário o sacrifício de alguns animais para dar o seu sangue ao Sacalá, sob pena de as pessoas que não fizerem essa cerimónia virem a ter problemas de saúde ou quaisquer outros azares. Todas as pessoas têm que promover essa cerimónia quando se encontram numa dessas situações e nem a falta de condições económicas, para comprar, por exemplo, os animais, pode ser obstáculo.

O Serifo partiu e durante vários dias não havia notícias dele. A minha mente, incapaz por vezes de compreender culturas tão diferentes, levavam-me a pensar que talvez o Serifo estivesse doente e que seria melhor ter tentado convencê-lo a ir ao médico, ou até que o próprio Serifo já ultrapassava em alguns anos a esperança média de vida dada aos homens deste país (o seu pai é uma excepção raríssima); e se ele estivesse mesmo doente? De vez em quando, de manhã ao chegar à faculdade, perguntava ao Saliu: “O Serifo já voltou do Sul?”, “Alguém teve notícias do Serifo?”. Nada.

E um dia o Serifo voltou: muito bem-disposto, com melhor aspecto, parecia um homem novo. Vinha feliz, satisfeito, aliviado. Tinha cumprido o seu dever.

O Serifo é guarda de dia na FDB há quase cinco anos, veio substituir o Vicente quando este faleceu. Como ele fazia, liga e desliga o gerador, abre e fecha as portas das salas, leva e traz os livros de sumários, ajudando o seu grande amigo Saliu, e por vezes aparecem outras coisas para fazer. Antes trabalhou num projecto da cooperação holandesa de abastecimento de água. “Acabou o projecto”, lamenta, pois diz: “ganhava bem”. Mas a grande surpresa foi descobrir recentemente que o Serifo foi vocalista na primeira “orquestra” da Guiné-Bissau, os Cobiana Djazz, grupo fundado por José Carlos Schwarz, que depois fundou também os Super Mamma Djombo, dizendo-se portanto que este segundo grupo, hoje mais famoso, teve origem no primeiro.

Quando lhe disse que ia escrever sobre ele perguntei-lhe se teria alguma coisa para dizer a alguém, talvez aos meus colegas que estiveram neste projecto (FDB). Ri-se, mas depois começa a desbobinar. Muito teria para dizer mas resume-se a: “ainda tenho as sapatilhas que o Dr. João me deixou mas se ele pudesse mandar outras.” Agora rio-me eu. E termina dizendo mantenhas (em crioulo) ou abarca (em mandiga) ou numbara (em biafada) para os doutores João, Ataíde, Mónica e Cláudia.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

GRILOS EM NOVEMBRO

À noite, aqui no escritório, oiço-os de duas formas: parece uma sinfonia ao longe, mais z-z-z-z do que gri-gri-gri, e ao perto batem, batem, não tão levemente assim, no vidro da janela ao tentarem chegar à luz.

Cá dentro, de vez em quando, um ou outro intruso. É certa uma batalha com o chinelo.

É assim durante umas semanas todos os meses de Novembro na Guiné-Bissau. Não sei porque aparecem nem como desaparecem. Mas é uma imensidão de grilos. Estão por todo o lado, como uma praga. Há-os nos restaurantes, em espaços ao ar livre são incontáveis, por todo o lado.

De dia mal se vêem mas à noite é impossível não nos cruzarmos com dezenas ou centenas na rua, e às vezes alguns em casa. Saltam muito, voam limitadamente e não têm pudor em agarrarem-se às nossas roupas ou cabelos. Não é assim tão raro termos que sacudir um de vez em quando.

De manhã a varanda e a escada parecem campos de batalha do dia seguinte, grilos mortos, pernas de grilos, e formigas, que nem abutres, de volta dos despojos da noite.

Felizmente o mês está a acabar e com ele os grilos. Ao longo dos últimos dias ouvem-se e vêm-se cada vez menos, assim como de ano para ano. Com esta foto apetece dizer, como Boris Vian, Morte aos Feios.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

PRIMEIRO DIA DE ESCOLA

Agora a escola da Maira já começou há mais de um mês. No dia 12 de Outubro, com uma semana de atraso, pois queriam organizar uma cerimónia para apresentar e agradecer os livros enviados pelo actual Presidente de Portugal para a escola com o seu nome, a qual mesmo assim não pôde ter lugar antes do início das aulas.

Neste momento tudo parece ter entrado numa normalidade que me permitiu algum sossego sobre as preocupações iniciais. A Maira está adaptada à escola e mais do que isso gosta e parece apreciar cada momento.

A preparação para o começo das aulas foi sentida com grande entusiasmo de ambos os lados.

A mochila com os materiais já estava pronta há semanas, e só ficava aqui por casa até mesmo à véspera para que não se dissipasse tudo antes de passar pelo primeiro dia de aulas. Essa era uma preocupação legítima: ao fim de um mês a Maira vai pelo menos no quarto lápis a carvão, no terceiro afia, as canetas de pintar já não são localizáveis e os lápis de colorir duram porque nunca daqui saíram, e assim ainda é possível pintar pelo menos aqui por casa.

Mas havia mais preparativos. Por aqui preparou-se uma caixa só para as coisas da Maira. A Maira divide a cama com mais duas meninas, uma irmã e uma prima, e o resto da pequenina casa com várias pessoas. E tudo é um pouco de todos. Mas agora que a Maira ia para uma escola onde todos os dias se deveria apresentar muito arranjadinha, uma “gaveta” só sua era essencial. Houve espaço para um vestido azul que estreou no primeiro dia de escola e calças de ganga que passariam a fazer parte do uniforme escolar quando estivessem prontas as t-shirts da escola, entre outras coisas.

No domingo, véspera do primeiro dia de aulas, quando cheguei ao pé da casa da Maira por ali também decorriam preparativos importantes. A Alzira, irmã mais velha, arranjava-lhe o cabelo numa operação aqui conhecida por tissi cabelo.
Se algum dia achei que ia ser uma mãe exemplar, por a vontade de o ser ser tão grande, o primeiro dia de aulas desta menina, da qual me sinto um pouco responsável, meio madrinha, meio tutora, veio provar o contrário.

Fui levá-la à escola no primeiro dia mas lá chegadas constatei que as outras crianças tinham lancheira. Ops! O lanche para o intervalo. Compensa-se com umas moedas entregues para comprar bolinhos e sumos que vendem à porta da escola.

Como se não bastasse, no fim das aulas cheguei atrasada e ela já tinha ido para casa. Como há que ver sempre tudo pelo lado positivo, para além de ter sido um treino utilíssimo, e que perante experiência semelhante é pouco provável que falhe pelo menos nos mesmos aspectos; sem este último atraso não teria assistido à seguinte imagem: fui direita a casa da Maira, a menos de 200 metros da escola, e cá fora estava a Maira em cuecas (porque tinha tirado e guardado o vestido para não o sujar) sentada num banco e com o caderno noutro banco à sua frente, a fazer os TPC. Estavam afastadas quaisquer dúvidas sobre o seu interesse ou entusiasmo pela escola.

A Professora Etelvina passa-lhes trabalhos todos os dias, os primeiros dias eram uns exercícios (que não me lembro o nome) que serviam para treinarem o movimento da mão e do pulso, o pegar na caneta ou no lápis, faziam “ondas” e “e”s ou “u”s todos pegados, até que passaram a fazer letras, números, e agora sílabas.

A Maira vem quase todas as tardes aqui a casa, mostra os cadernos, quase sempre traz os TPC feitos, faz outros trabalhos que lhe vou dando, escreve letras ou números, pinta ou vê desenhos animados quando o meu trabalho aperta. Um destes dias um vendedor ambulante impingiu-me um destes quadros em que se escreve, se puxa um peça que passa por baixo do “ecrã” e apaga, tem uns carimbos e assim passámos mais uma sessão de estudo a brincar.

Entretanto as t-shirts da escola ficaram prontas e fica assim a Maira com a foto do Presidente do meu país ao peito. Não sei porquê mas rio-me.
Fica mais bonita com as trancinhas que um dia destes a Alzira lhe fez, embora tenha faltado a duas tardes de estudo porque leva muito tempo para ficar assim.
Entretanto, não só pelos comentários ao post anterior, mas muitas pessoas têm manifestado vontade de ajudar a Maira. A Telma enviou-nos um “Manual das 28 palavras” que ainda não começámos a utilizar para dar tempo de conhecer mais umas letras. E a mãe da Ana e a Ana (quem me escreveu) enviaram há poucos dias de Portugal uns miminhos para a Maira: um livro da Rua Sésamo, com o Egas e o Becas (série que fez 40 anos há poucos dias que é de facto um sucesso neste método de aprender a brincar), mais uns livros de histórias e alguns de exercícios, que já estão a ser muito úteis.
A todos um obrigada meu e da Maira.
O nosso obrigada especial vai para a Lena que tem trabalhado para que tudo isto seja possível. Há umas semanas disse-me que esperava apenas que a ajuda pudesse fazer sorrir várias pessoas. E, como o trabalho não me permitia tempo para escrever aqui enviei-lhe estes sorrisos.
A ajuda tem sobretudo feito sorrir a Maira mas estas crianças, familiares e vizinhas da Maira ficam igualmente felizes. Cada vez que lá vou chamam-me branca di Maira, riem-se muito, correm à minha volta, ficam genuinamente felizes; e este momento emocionante foi apanhado num desses dias em que vieram até junto do carro despedir-se de mim.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

ÁRVORE É PÉ-DI-MANGO

O início de um sonho
Quando eu e a Lena decidimos que a Maira dos olhos azuis seria a primeira menina a concretizar um sonho feito de panos africanos, apesar de toda a vontade, temíamos várias coisas. Uma delas era a adaptação da Maira à escola escolhida. Em parte porque fiquei com a impressão que muitos dos meninos que iriam para a 1ª classe naquela escola já lá tinham frequentado a pré. A Maira não falava nada em português, entendia pouco, ou quase nada, do que lhe dizia em português, parece-me, nunca tinha visto um livro nem de histórias infantis, nada com letras, números, bonecos.

Ainda antes de partir para férias, pedi ao Eliseu (um post sempre adiado), que ensinasse algumas coisas à Maira, a falar um pouco mais de português, a tentar conhecer algumas letras e números. Não lhes deixei mais que um bloco de notas, caneta e lápis de carvão. Era o que havia aqui naquele momento, no meio das pressas de mais uma partida.

O início das aulas na Escola Privada Portuguesa Professor Doutor Cavaco Silva estava previsto para dia 5 de Outubro.

Como todos os anos, o regresso em Setembro foi acompanhado de muita chuva de trabalho (e de chuva real também) mas, a três semanas da data prevista para o início da escola, as lições da Maira mudaram-se aqui para casa. Foi num domingo que fui buscar a Maira para vir a minha casa pela primeira vez.
Os primeiros momentos foram de deslumbramento. Mostrei-lhe a mochila, os livros, cadernos, lápis e canetas de cor. Tentei explicar-lhe tudo ao mesmo tempo. Mostrei-lhe a casa e penso que o que achou mais fascinante foi a casa-de-banho. Nos dias que se seguiram ia lá pelo menos três vezes, em uma ou duas horas no máximo que aqui passa de cada vez. A primeira vez expliquei-lhe, depois passei a ouvir sempre o puxar do autoclismo e o abrir de torneiras.
Explico: a casa da Maira não tem casa-de-banho. A Maira e outras meninas, como ela e mais velhas, vão buscar água em bacias todo os dias para se lavarem, na rua, à porta de casa.
Foi na “loja do chinês” que desencantei estes livros, que parece que têm resultado bem para o começo.
Primeira lição da Maira, a letra A.

Antes de mais eu não fazia ideia do que estava a fazer. Uns dias mais tarde, o Osvaldo já aqui por casa, disse: Não se usa esse método de letra por letra, é por sílabas.
A minha boa-vontade para ensinar uma criança é maior do que a minha formação para esse efeito, confesso.

Mas também suspeitei do método e dos materiais logo na 1ª lição.
A letra A, “A” grande, “a” pequeno, palavras começadas por A.
Primeira imagem. O que é?, pergunto e aponto, e obtenho como resposta: “Pé-di-mango”.
Olhar de surpresa meu não sei porquê. À porta de sua casa, em volta de onde se move, as árvores são “pés” que dão mangas, papaias ou cajus. Não está errado mas vamos lá às palavras começadas por “A”. Agora já é a árvore, o avião identificou à primeira (até achei mais estranho), a águia era um catcho (pássaro em crioulo) e a ambulância um carro. Nada de grave. As dificuldades iniciais da Maira em identificar os desenhos nos livros são fáceis de explicar e muito compreensivas. Alguns objectos ela nunca viu mesmo, muitos conhece-os com outros nomes, e torna-se mais difícil identificar bonecos que representem coisas reais, quando não se tem contacto com bonecos ou livros.
Claro que as crianças na Europa são muito espertas desde pequenas, sabem tudo, dizemos. Têm livros desde os seis meses, cheios de bonecos, cores e sons. Vêm desenhos animados desde os dois anos e aos quatro têm computadores portáteis que ensinam as letras e números em inglês. É bom que lá seja assim, é pena que aqui não haja um livro nem por cada 100 crianças.

Aqui por casa as lições continuam. O livro das vogais já foi todo visto e revisto, o dos números idem. O percurso foi mais ou menos o seguinte: identificar a letra ou o número, colar os autocolantes respectivos, pintar e escrever a letra ou o número. Agora é repetir, por vezes encontrar alguns materiais na net e imprimir. Encontrei por exemplo estes blogs:
Espaço Educar
Coisas da Ana Paula
Desenhos Download

Agradeço se souberem de mais.

Para além dessas actividades a Maira aqui já viu um pouco de televisão. Disse-me que o pai de uma vizinha tem e que às vezes vê novela. Os primeiros bonecos que viu aqui em casa não eram nada apropriados. O Noddy salva o Natal tem o Natal, a neve, os presentes. Demasiadas diferenças mas a música do Abram alas pró Noddy entra no ouvido.
Por outro lado, um destes domingos vimos A ilha das cores. Isso sim, e fez-me pensar na Rua Sésamo. Por isso não posso deixar de fazer o pedido. Se tiverem materiais destes programas ou semelhantes que possam ser divertidos ao mesmo tempo que educam por favor enviem-mos.
Porque este post já vai longo e há mais de uma hora que amanhece e que o galo canta, volto ao trabalho e conto mais logo o 1º dia de escola da Maira.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O FERIADO DA LUA

O Fim do Ramadão

Hoje foi o feriado da lua (21/09). Não o único mas um deles.

Terminou o mês do Ramadão, o nono mês segundo o calendário islâmico, um calendário lunar. Durante os últimos 30 dias os muçulmanos, que neste país se aproximam da metade da população, fizeram o jejum.
Foi das primeiras coisas que o Braima me disse quando me foi buscar ao aeroporto: Braima stá no djumdjum.
Ana sabe o que isso significa. Significa que Braima quer bidon de iagu fresca todos os dias ao final do dia para levar quando for cortar o djumdjum.

O jejum começou a 22 de Agosto porque nessa noite apareceu a lua nova que indicava o início do mês do Ramadão.
Durante este mês os muçulmanos não comiam nem bebiam durante o dia, desde as 6H da manhã até às 19:15H. Não é só o não comer e beber, na verdade eles não podem engolir o que quer que seja, por isso lembro-me sempre que, neste mês (o do Ramadão e não o de Setembro), vemos frequentemente pessoas a cuspir, para não engolirem o próprio cuspo.

O dia que assinala o fim do Ramadão é um dia muito importante. Ter sido capaz de aguentar o sacrifício daqueles dias é uma prova de fé. E é um feriado em que as pessoas vão à mesquita pela manhã, usando as suas melhores roupas, se possível novas, juntam-se e comem e bebem o melhor que podem.

Fez-me lembrar o Natal ou a Páscoa à medida que fui percebendo os preparativos que eram feitos.

O Braima quis um sabador novo para estrear nesse dia, pelo que no sábado anterior fui ao Bandim comprar uma coisa que nunca tinha comprado na vida.

Hoje o Braima apareceu passava pouco das 10H da manhã. Já tinha ido à mesquita e vinha orgulhosamente mostrar o seu novo traje, o seu novo tapete de oração e pedir postal.
As fotos vêm primeiro para aqui e só depois serão reveladas para lhe entregar.

Aproveito para lhe pedir alguns esclarecimentos, já que o Saliu e o Serifo vieram pedir apoio para ficarem a assistir à partida da lua na noite de 5ª para 6ª.

É a noite de mancida, explica. Mancida de ficar a ver amanhecer. O Dafé explicou-me mais tarde que também se chama Laylat al Kadr, e que laylat é noite em árabe. Na noite do 26º para o 27º dia do jejum a lua (minguante) desaparece por completo e os muçulmanos despedem-se da lua que significa o princípio do fim do Ramadão. As duas ou três noites seguintes serão de completa escuridão, é de descanso, dizem. E só na 29º ou 30º noite aparece a LUA NOVA que assinala então o fim do Ramadão e do jejum. É feriado!

Digo, animada, que hoje é dia de comer muito mas Braima responde apenas: “se pode”.

Na casa da família do Dafé pode-se. Passo por lá um bocado em resposta ao amável convite para a festa de fim de Ramadão e aprendo um pouco mais sobre o feriado, o Alcorão e o árabe. Não me demoro pois demorado foi o caminho para ir ao e vir do Bairro de Antula.

Mais tarde passo pela maior e mais bela mesquita de Bissau, onde Braima vai fazer oração, frente ao Hospital 3 de Agosto, na Avenida.


Aparecem uns meninos nos seus novos sabador a pedir festa e troco a festa por mais um postal de mais um dia diferente.

Bom feriado
e
Salam Aleikum
(Que a paz esteja sobre vós / convosco)

domingo, 20 de setembro de 2009

SONS DE ACORDAR E AVENIDA CORTADA

Na terça-feira, dia 7, acordei ao som de sirenes, na quarta ao som do canto de aves, na quinta com a chuva a bater com força no chão, grade e portadas da varanda, e na sexta com o ruído do gerador. Adormeci sempre ao som ritmado do gerador.

Na terça o alarme das sirenes não era uma surpresa nem razão para alarme mas podia ser um motivo de curiosidade. Levantei-me e fui até ao cruzamento espreitar a Avenida.
Como imaginava, ainda deitada, uma das vias da Avenida estava reservada para viaturas do Estado, autorizadas com livre-trânsito ou de urgência.

Acontece com alguma frequência, por exemplo sempre que o Presidente da República viaja, na Avenida 14 de Novembro, ou melhor Avenida dos Combatentes da Liberdade (renomeada depois do assassinato do ex-Presidente Nino Vieira), é “cortada” uma via para passar a viatura presidencial e a respectiva delegação.

Quando isso acontece, se não for absolutamente necessário, não saio de carro durante o período que o corte de estrada durar. Todo o trânsito a circular numa só via é uma confusão de veículos que só visto e a diferença de demorar, por vezes, cerca de 1 hora a fazer um percurso que habitualmente se faria em 10 minutos.

Nesta terça-feira, no cruzamento, seis ou sete polícias controlavam a circulação de viaturas, impedindo sobretudo que entrassem ou se atravessassem na via reservada. Estavam nervosos. O mais velho deles, coxo, não queria nem deixar que os carros vindos do lado do bairro acedessem à via não reservada da Avenida, mas voltar para trás não era uma alternativa, e de vez em quando polícias e condutores gritavam uns com os outros e entre si.

As preocupações com a segurança eram enormes (as práticas seguidas questionáveis) mas não era de admirar; seis Chefes de Estado africanos e personalidades da vida política de diversos países vieram assistir à tomada de posse do novo Presidente da República da Guiné-Bissau: Malam Bacai Sanhá. Já antes tinha sido Presidente interino do país (1999/2000), é agora o 3º eleito, o 4º efectivo, e o 6º entre efectivos e interinos desde a independência.

Em todos os postes da Avenida (nunca iluminados) uma bandeira do PAIGC. Em todas as pessoas à beira da estrada uma esperança de que desta haja uma verdadeira mudança.
Fiquei um pouco à espera: queria ver passar a delegação do Presidente, na altura ainda o interino Raimundo Pereira, com os polícias batedores à frente, de lado e atrás, quase colados ao veículo presidencial ou então os 45 carros pretos compridos quase todos iguais, disponibilizados para esta cerimónia, penso que pela Líbia. Já os tinha visto passar no centro da cidade no dia anterior, todos em fila, quase colados uns aos outros, quatro piscas ligados e nenhum com matrícula. Quando eles passavam mais nada passava.
Esperei mais um pouco, passaram alguns carros do Governo, outros de missão diplomática, mas na verdade ainda havia pouco movimento. Aqui e ali uma ambulância com nome de um hospital em Itália ou um carro dos bombeiros de “Hudson Fire Department”. Traços da Guiné, sinal de ofertas no âmbito da cooperação internacional para ajuda ao desenvolvimento. Faz-nos sorrir.
Os ansiados carros e motas poderiam demorar a passar e havia muito trabalho para pôr em ordem neste feriado não programado, por isso quando recomeçou a chuviscar regressei a casa.

No final do dia soube que a cerimónia tinha corrido bem, sem incidentes, apenas com um atraso (típico) de três horas e meia. Ainda bem que não me demorei a ver os carros passar.

sábado, 12 de setembro de 2009

ONDE ESTAVA COM A CABEÇA?

Não sei o que me deu para sair de casa hoje. Esteve a chover horas seguidas sem parar. Era óbvio que as estradas estariam assim. Ou não andasse eu a ver este filme há quase 5 anos.

(Avenida que vai da Praça dos Heróis Nacionais para a Mãe d`Água)

(Rua do Bonjour no centro da cidade)

Bom, tinha prometido a um amigo que ia com ele ver uma compra importante que ele quer fazer, que prometo contar se se concretizar, e ao final da manhã, quando parecia que o tempo ia melhorar um bocadinho, lá fomos. Não foi nada boa ideia e ao fim de umas voltas pela cidade, com o tempo sempre a piorar, acabámos por adiar a pesquisa no mercado para um dia mais seco.

(Lado oposto da Rua do Bonjour que vai dar às NU)

Na estrada do Caracol, paralela à Avenida, num só sentido Mãe D`Água – Chapa, a hesitação perante um lago de lama. Bom, a toca-toca passou, o jipe também passa. Entra na poça gigante quase até meio mas volta a sair. Tenho mesmo que ir para casa e ter juízo.

A chegar ao Bairro está o Saliu ao portão, debaixo de chuva, chinelos de enfiar no dedo em cima da lama:
- Queria muito vir fazer visita para a Dr.ª! Ainda não tinha vindo desde que Dr.ª voltou.
- Obrigada Saliu! Não era preciso. Muito menos num dia como este.
- Não tem mal. Maimuna emprestou esta sombrinha
(traz um chapéu-de-chuva grande, preto, com duas varetas partidas). Não tem dinheiro para comprar uma sombrinha assim.
- Quanto custa uma sombrinha assim?
- 2.500.


Estaciono e está a Maria à entrada do prédio encolhida e a tremer.
- Maria, estás com frio?
- Sim.
- Está de chuva mas não está frio.
(Muda e a tremer aponta para a cabeça)
- Ah, estás doente?
- Sim.
Subimos.
- Queres Ben-uron ou Aspegic?
- Sim.
Típico.
- Junta um bocadinho de água, mexe e bebe. Toma um agora, outro só logo à noite. As melhoras.
- Sim.

Passados uns minutos a campainha. O Saliu com uma sobrinha nova.
- Dr,ª homem queria 3.000 por causa de chuva mas só paga 2.500.
- Boa Saliu. Até 2ª.

Passado mais um bocado a campainha outra vez. O Cabi. Ah pois, tínhamos um trabalho para fazer. Listas de convites, envelopes, etc.
- As pastas?
- Não pude trazer Dr.ª, tá muita chuva.
- A pen com as listas?
- Dr.ª não trouxe pen
(ri-se). Deixei em casa. Está a chover muito, sempre desde de manhã.
- A pen no bolso não se molha, não?
- Dr.ª de manhã cheguei todo molhado à Faculdade para ir abrir a Biblioteca. Tinha roupa num saco e mudei lá depois de chegar.
- Esquece. Não digas mais nada. Trabalhamos segunda-feira.

A meio da tarde estou na secretária, a escrever no computador, cortinados todos abertos, olho pela janela e está o
André a fazer sinais lá fora à espera que o veja. Pelo menos tem sombrinha. Fechada. Já só caem umas pingas. Vou à varanda.
- André que andas aqui a fazer?
- Um passeio.
(Dentro do bairro?, que é privado. Sim, pois.)
- Devias estar em casa.
(Silêncio)
- Ana, fizeram outra vez.
(Espero)
- Comeram e não deram-me de comer.
- Sobe.

Mas porque é que não está tudo em casa num dia como este?!?!?, penso.
As últimas revelações do André, contadas nesta semana do regresso, estão a dar que pensar desde ontem. Talvez para partilhar mais tarde porque tem que ser tudo visto com muita cautela. Todas as outras histórias são mais comuns. São normais estes episódios na época das chuvas: pessoas que não vão trabalhar porque nem conseguem passar num local com tanta lama, pessoas encharcadas até aos ossos, pessoas que não têm mais roupa seca para vestir, pessoas que adoecem mais do que em outras épocas do ano, vendedores de rua que se mantém à chuva porque é assim, carros que avariam dentro de grandes lagos enlameados, de profundidade às vezes desconhecida.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

MAIS UM REGRESSO A BISSAU

- Ali é Bissau!
- Ali? Mas está nevoeiro?
- Não. É mesmo assim. Não há luz!
- Não há luz eléctrica em Bissau?!?!
- Quer dizer há um sistema de energia da rede pública alimentado por geradores, mas a maior parte do tempo não existe dinheiro para o combustível ou manutenção pelo que quase nunca há luz nas ruas.
O ar atónito do passageiro europeu, ao meu lado no avião, não passa nem quando o seu anfitrião, guineense que não vem à sua terra há mais de uma década, o tenta confortar dizendo que a casa da sua família (onde pelos visto irão ficar) tem luz.
Apetece-me dizer-lhe que se devia ter informado melhor antes de vir, literalmente, às escuras, fazer prospecção de mercado para investir no país, mas fico-me por um sincero “boa sorte”.

À saída do avião a temperatura é a melhor do mundo, quentinho como eu gosto, e o já familiar cheiro a terra molhada denuncia que tem chovido, ou não fosse a época dela.

As pessoas que me vão buscar ao aeroporto têm variado ao longo dos anos; há uma que não muda. Desta vez pedi ao Braima para ir ao aeroporto e levar-me o jipe. Mas assim que saio da porta do aeroporto vê-se o
André a ultrapassar toda a gente e é o primeiro a agarrar-me a mala. Não falha. O Braima espantado com a rapidez daquele e sem estar à espera fica a olhar para mim, como que à espera, e acabo por lhe entregar a mala do portátil porque no seu olhar parece que se não levar qualquer coisa nem parece que foi ele quem me veio buscar.

A caminho do jipe, no estacionamento, aparece o Revilino, e o Cabi estava na carrinha à espera, não me tivesse eu esquecido de ligar a pedir para alguém me vir buscar. Não era necessário, obrigada na mesma, e amanhã lá estaríamos na
FDB.

Pego no meu jipe, dos pouco bens materiais que me dão alguma satisfação, e volto a conduzir na escuridão de Bissau, em direcção a casa.

Antes há que deixar o Braima em casa dele e para tal, no mesmo cruzamento onde habitualmente viro para casa, viro no sentido oposto, à esquerda no cruzamento do Bairro da Ajuda, sempre em frente irá dar ao Bairro de Missira. O arrependimento a poucos metros depois de virar para ali: não há alcatrão, só terra, lombas, buracos, poças de água e lama, e a única luz é a dos faróis do jipe. Devia ter ido à volta pela “Chapa”. Continuo entre a 1ª e a 2ª velocidade procurando passar no bocado menos mau de caminho.

(Cruzamento do Bairro da Ajuda)

Dá para aproveitar uma pequena "visita guiada", sabia que era ali para aqueles lados e pergunto a Braima:
- Onde morava o
Baciro Dabó?
- 2ª à esquerda.
- Ao passar ao lado, espreito, e lá está, uma vivenda alta e iluminada a contrastar com tudo o que está à volta.

Continuo no escuro. De repente o barulho de um pequeno gerador e eis que no meio da tabanca surge uma casinha cheia de luz, portas e janelas abertas. Alfaiates vários, em grande azáfama até no alpendre, máquinas de costura, panos e linhas. Fantástico.

- Estão a trabalhar às 3:30H da manhã? – pergunto a Braima que responde naturalmente: - Tem que ser, estão a fazer vestidos para o Ramadão.

Sorrio. Não pude tirar uma foto mas aquela imagem está gravada e esquecer-me-ei dela muito depois de fotos que efectivamente tirei.

Deixo o Braima, que está agora no djundjun (jejum) à porta da sua casa e sigo para a minha, desta vez pelo caminho da “Chapa”, bem melhor.

A temperatura continua óptima na rua, não me cruzo com mais nenhum veículo. A sensação de que esta é uma aventura que não tem fim, que é assim há anos, e ainda poder ser surpreendida com pequenos mas grandes acontecimentos volta a estar presente e sinto-me bem por ter regressado.

(Estrada/caminho de lama em época de chuvas)