quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

TITINA SILÁ

Fez ontem anos que morreu Titina Silá. Foi assassinada quando ia a caminho do funeral de Amílcar Cabral (um post para o futuro). Era militante do PAIGC e uma das muitas mulheres que combateu na Luta pela Independência. Muitas foram as mulheres guineenses que ao lado dos homens combateram pelos ideais em que acreditavam. Há um monumento na Amura, forte militar em Bissau, em homenagem à Titina Silá. Também é lá que se encontra o túmulo de Amílcar Cabral. Mas ainda não foi desta que consegui passar do portão da Amura, na foto em baixo conseguida um tanto ou quanto furtivamente aos militares de guarda.
Sem considerações sobre a guerra, que não me interessa, não foi nem nunca é solução, queria apenas prestar homenagem a essa mulher, a todas as outras ex-combatentes, e ainda a todas as mulheres que não lutando da mesma forma, lutaram em sentimentos pela perda de maridos e filhos. Não sendo feminista extremista emociona-me e faz-me sorrir a força e carácter de certas fêmeas, como por aqui se diz vulgarmente. (A foto em cima à esquerda, com Titina Silá, Amilcar Cabral e população, faz parte do arquivo fotográfico da Fundação Mário Soares)

sábado, 26 de janeiro de 2008

OS RÁPIDOS – SALTINHO E CUSSILINTA

As viagens ao Saltinho não costumam acontecer sem grandes peripécias. A primeira vez que tentei ir ao Saltinho foi um “saltinho” enquanto a carrinha avariou. A segunda vez acabou por ser a primeira, dessa vez cheguei lá mas o jipe ficou com o maior risco que ainda hoje tem (apesar de agora no meio de muitos mais pequenos e médios), por uma “estrada” que seria mais do que um eufemismo chamar-lhe isso. E à terceira a “estrada” que estava a ser arranjada era ainda maioritariamente má, e no meio da picada uma pedra partiu o pára-brisas do jipe, que conserva a prova da viagem.
Hoje a estrada está toda arranjada de Bissau ao Saltinho e fazem-se bem os 170 Km para tomar uma banhoca nos Rápidos. Nas partes das águas mais paradas é possível arriscar um mergulho, nos rápidos o melhor é andar com cuidado pelas rochas até arranjar uma “cadeira”, encaixar-se e deixar-se ficar aí numa espécie de hidromassagem natural. A sensação é de bem –estar, de paz, de silêncio.
Na estrada principal, a 12 Km antes de se chegar ao Saltinho - em frente à tabanca maior foi a indicação que nos foi dada -, há uma entrada em que se passa pelo meio de umas casas, num caminho de terra, que dá acesso a uma entrada no mato, aí percorre-se um caminho apenas identificado pelos rastos deixados por outros jipes que aí passaram e ao fim de 3 Km chega-se a mais uns Rápidos: Cussilinta. Em Cussilinta é mais fácil conseguir um bom lugar para um banho relaxado, sobretudo quando no Saltinho as águas são ainda muitas e muito fortes nos meses que se seguem às chuvas.
No fim desta ida ao Saltinho as peripécias “cingiram-se” a umas picadelas de melgas e mosquitos dos tornozelos ao pescoço, até agora sem mais consequências do que a normal comichão e cujo tempo apaga as provas.
No continente estes são dos locais mais bonitos para se visitar, e foi até lá que há 2 anos levei o meu pai, e desta vez a Sol. Acho que gostaram. Eu adoro.




sábado, 5 de janeiro de 2008

BIJAGÓS II

É preciso estar aqui para escrever sobre AQUI. De regresso à Guiné-Bissau e ao calor (bendito), nesta altura especial de início de novo ano é tempo de desejar mais, de ter ainda mais esperança, como todos os inícios de ano em que desejamos que corra sempre melhor que o anterior. Para além dos desejos fortes mas vagos de que tudo corra bem por aqui, que seja um ano de paz e de prosperidade, ao fim de um dia de aqui voltar o que mais me vem à saudosa memória são os Bijagós.
É um desejo para 2008, voltar aos Bijagós.
É certo que nem todas as experiências foram como a que hoje conto, algumas experiências que muitos já me ouviram falar devem fazer com que esses me achem doida por querer “arriscar” de novo. Peripécias que ficam para contar em altura em que os desejos estejam menos inebriados do Ano Novo.
Por hoje a vontade é de repetir a dose de Abril de 2005. Foi a segunda vez que fui aos Bijagós. O Africa Queen é um barco senegalês que faz cruzeiros aos Bijagós mais ou menos entre Novembro e Maio. É como viajar no tempo para um lugar chamado Paraíso. Uma calma, uma paz… E a paisagem. É tão difícil escolher entre as centenas de fotos para mostrar apenas uma meia dúzia. Queria mostrá-las todas. E conseguir descrever cada um daqueles momentinhos, em que até parece que o tempo não passa, mas que infelizmente acaba.
Entrar no Africa Queen numa 6ª feira à noite em Bissau e acordar na manhã seguinte ao largo de uma destas ilhas é como um sonho mas em que mais do que se ver, se sente, se cheira, se vive.
Pela primeira vez conheci uma tabanka nos Bijagós. A ilha das Galinhas é habitada e tem várias tabankas. Numa delas um homem fazia óleo de palma, como sempre se fez. Não há por ali nada de moderno, nenhuma tecnologia. Na maior parte das tabankas nem sequer há luz, para além da do Sol, salvo alguma sortuda com gerador. Vive-se por ali como há centenas de anos atrás, essencialmente com aquilo que a terra e o mar lhes dá. Claro que a estas ilhas onde já há mais habitantes, há algumas canoas que por ali vão com alguns produtos de Bissau, e assim se fazem algumas (poucas) trocas comerciais. Mas ainda assim o isolamento é muito grande.
As máquina fotográficas são obviamente um espanto para a população, mas ficam extasiados com a imagem deles na máquina digital, amontoam-se e ficariam ali a ver-se todo o que tempo que os deixássemos. Depois ficam felizes, riem, fazem mais poses.
O João fez um daqueles truques para os miúdos, daqueles com as mãos em que parece que se separa o polegar da mão, ficaram surpreendidos, espantados e alguns gritavam o que soubemos depois que significava “feiticeiro”. Impossível não rir por essas e por outras, e impossível não chorar com a falta de certas condições, com a impossibilidade de tratar uma criança de meses doente com qualquer coisa que até poderia ser curável, noutro lugar. Só visto, só vivido.
Tempo de deixar a realidade da ilha das Galinhas que passou para o plano da memória; mais nos espera para agitar os sentimentos.
Uma das grandes vantagens de ir aos Bijagós no Africa Queen é conhecer várias ilhas. Um das fotos é da Ilha dos Cavalos mas as outras são da Ilha do Meio que ficou até hoje como a minha preferida. Ficar por ali a descansar numa praia imensa, em que para além da areia só a vegetação cerrada, selva. E quase ninguém, apenas um casal francês de reformados fazia concorrência a mim e aos meus dois amigos. A sensação é única, já o disse antes, a de “raros privilegiados”. Ao contrário de outros lugares que visito e que também me apaixonam e que depois fico a desejar viver um tempo por lá, não desejo viver nos Bijagós, apenas desejava que ficassem sempre assim, intactos, e poder lá voltar, de vez em quando, sem nunca perder aquela sensação.

FELIZ ANO NOVO!