quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

PRIMEIRO DIA DE ESCOLA

Agora a escola da Maira já começou há mais de um mês. No dia 12 de Outubro, com uma semana de atraso, pois queriam organizar uma cerimónia para apresentar e agradecer os livros enviados pelo actual Presidente de Portugal para a escola com o seu nome, a qual mesmo assim não pôde ter lugar antes do início das aulas.

Neste momento tudo parece ter entrado numa normalidade que me permitiu algum sossego sobre as preocupações iniciais. A Maira está adaptada à escola e mais do que isso gosta e parece apreciar cada momento.

A preparação para o começo das aulas foi sentida com grande entusiasmo de ambos os lados.

A mochila com os materiais já estava pronta há semanas, e só ficava aqui por casa até mesmo à véspera para que não se dissipasse tudo antes de passar pelo primeiro dia de aulas. Essa era uma preocupação legítima: ao fim de um mês a Maira vai pelo menos no quarto lápis a carvão, no terceiro afia, as canetas de pintar já não são localizáveis e os lápis de colorir duram porque nunca daqui saíram, e assim ainda é possível pintar pelo menos aqui por casa.

Mas havia mais preparativos. Por aqui preparou-se uma caixa só para as coisas da Maira. A Maira divide a cama com mais duas meninas, uma irmã e uma prima, e o resto da pequenina casa com várias pessoas. E tudo é um pouco de todos. Mas agora que a Maira ia para uma escola onde todos os dias se deveria apresentar muito arranjadinha, uma “gaveta” só sua era essencial. Houve espaço para um vestido azul que estreou no primeiro dia de escola e calças de ganga que passariam a fazer parte do uniforme escolar quando estivessem prontas as t-shirts da escola, entre outras coisas.

No domingo, véspera do primeiro dia de aulas, quando cheguei ao pé da casa da Maira por ali também decorriam preparativos importantes. A Alzira, irmã mais velha, arranjava-lhe o cabelo numa operação aqui conhecida por tissi cabelo.
Se algum dia achei que ia ser uma mãe exemplar, por a vontade de o ser ser tão grande, o primeiro dia de aulas desta menina, da qual me sinto um pouco responsável, meio madrinha, meio tutora, veio provar o contrário.

Fui levá-la à escola no primeiro dia mas lá chegadas constatei que as outras crianças tinham lancheira. Ops! O lanche para o intervalo. Compensa-se com umas moedas entregues para comprar bolinhos e sumos que vendem à porta da escola.

Como se não bastasse, no fim das aulas cheguei atrasada e ela já tinha ido para casa. Como há que ver sempre tudo pelo lado positivo, para além de ter sido um treino utilíssimo, e que perante experiência semelhante é pouco provável que falhe pelo menos nos mesmos aspectos; sem este último atraso não teria assistido à seguinte imagem: fui direita a casa da Maira, a menos de 200 metros da escola, e cá fora estava a Maira em cuecas (porque tinha tirado e guardado o vestido para não o sujar) sentada num banco e com o caderno noutro banco à sua frente, a fazer os TPC. Estavam afastadas quaisquer dúvidas sobre o seu interesse ou entusiasmo pela escola.

A Professora Etelvina passa-lhes trabalhos todos os dias, os primeiros dias eram uns exercícios (que não me lembro o nome) que serviam para treinarem o movimento da mão e do pulso, o pegar na caneta ou no lápis, faziam “ondas” e “e”s ou “u”s todos pegados, até que passaram a fazer letras, números, e agora sílabas.

A Maira vem quase todas as tardes aqui a casa, mostra os cadernos, quase sempre traz os TPC feitos, faz outros trabalhos que lhe vou dando, escreve letras ou números, pinta ou vê desenhos animados quando o meu trabalho aperta. Um destes dias um vendedor ambulante impingiu-me um destes quadros em que se escreve, se puxa um peça que passa por baixo do “ecrã” e apaga, tem uns carimbos e assim passámos mais uma sessão de estudo a brincar.

Entretanto as t-shirts da escola ficaram prontas e fica assim a Maira com a foto do Presidente do meu país ao peito. Não sei porquê mas rio-me.
Fica mais bonita com as trancinhas que um dia destes a Alzira lhe fez, embora tenha faltado a duas tardes de estudo porque leva muito tempo para ficar assim.
Entretanto, não só pelos comentários ao post anterior, mas muitas pessoas têm manifestado vontade de ajudar a Maira. A Telma enviou-nos um “Manual das 28 palavras” que ainda não começámos a utilizar para dar tempo de conhecer mais umas letras. E a mãe da Ana e a Ana (quem me escreveu) enviaram há poucos dias de Portugal uns miminhos para a Maira: um livro da Rua Sésamo, com o Egas e o Becas (série que fez 40 anos há poucos dias que é de facto um sucesso neste método de aprender a brincar), mais uns livros de histórias e alguns de exercícios, que já estão a ser muito úteis.
A todos um obrigada meu e da Maira.
O nosso obrigada especial vai para a Lena que tem trabalhado para que tudo isto seja possível. Há umas semanas disse-me que esperava apenas que a ajuda pudesse fazer sorrir várias pessoas. E, como o trabalho não me permitia tempo para escrever aqui enviei-lhe estes sorrisos.
A ajuda tem sobretudo feito sorrir a Maira mas estas crianças, familiares e vizinhas da Maira ficam igualmente felizes. Cada vez que lá vou chamam-me branca di Maira, riem-se muito, correm à minha volta, ficam genuinamente felizes; e este momento emocionante foi apanhado num desses dias em que vieram até junto do carro despedir-se de mim.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

ÁRVORE É PÉ-DI-MANGO

O início de um sonho
Quando eu e a Lena decidimos que a Maira dos olhos azuis seria a primeira menina a concretizar um sonho feito de panos africanos, apesar de toda a vontade, temíamos várias coisas. Uma delas era a adaptação da Maira à escola escolhida. Em parte porque fiquei com a impressão que muitos dos meninos que iriam para a 1ª classe naquela escola já lá tinham frequentado a pré. A Maira não falava nada em português, entendia pouco, ou quase nada, do que lhe dizia em português, parece-me, nunca tinha visto um livro nem de histórias infantis, nada com letras, números, bonecos.

Ainda antes de partir para férias, pedi ao Eliseu (um post sempre adiado), que ensinasse algumas coisas à Maira, a falar um pouco mais de português, a tentar conhecer algumas letras e números. Não lhes deixei mais que um bloco de notas, caneta e lápis de carvão. Era o que havia aqui naquele momento, no meio das pressas de mais uma partida.

O início das aulas na Escola Privada Portuguesa Professor Doutor Cavaco Silva estava previsto para dia 5 de Outubro.

Como todos os anos, o regresso em Setembro foi acompanhado de muita chuva de trabalho (e de chuva real também) mas, a três semanas da data prevista para o início da escola, as lições da Maira mudaram-se aqui para casa. Foi num domingo que fui buscar a Maira para vir a minha casa pela primeira vez.
Os primeiros momentos foram de deslumbramento. Mostrei-lhe a mochila, os livros, cadernos, lápis e canetas de cor. Tentei explicar-lhe tudo ao mesmo tempo. Mostrei-lhe a casa e penso que o que achou mais fascinante foi a casa-de-banho. Nos dias que se seguiram ia lá pelo menos três vezes, em uma ou duas horas no máximo que aqui passa de cada vez. A primeira vez expliquei-lhe, depois passei a ouvir sempre o puxar do autoclismo e o abrir de torneiras.
Explico: a casa da Maira não tem casa-de-banho. A Maira e outras meninas, como ela e mais velhas, vão buscar água em bacias todo os dias para se lavarem, na rua, à porta de casa.
Foi na “loja do chinês” que desencantei estes livros, que parece que têm resultado bem para o começo.
Primeira lição da Maira, a letra A.

Antes de mais eu não fazia ideia do que estava a fazer. Uns dias mais tarde, o Osvaldo já aqui por casa, disse: Não se usa esse método de letra por letra, é por sílabas.
A minha boa-vontade para ensinar uma criança é maior do que a minha formação para esse efeito, confesso.

Mas também suspeitei do método e dos materiais logo na 1ª lição.
A letra A, “A” grande, “a” pequeno, palavras começadas por A.
Primeira imagem. O que é?, pergunto e aponto, e obtenho como resposta: “Pé-di-mango”.
Olhar de surpresa meu não sei porquê. À porta de sua casa, em volta de onde se move, as árvores são “pés” que dão mangas, papaias ou cajus. Não está errado mas vamos lá às palavras começadas por “A”. Agora já é a árvore, o avião identificou à primeira (até achei mais estranho), a águia era um catcho (pássaro em crioulo) e a ambulância um carro. Nada de grave. As dificuldades iniciais da Maira em identificar os desenhos nos livros são fáceis de explicar e muito compreensivas. Alguns objectos ela nunca viu mesmo, muitos conhece-os com outros nomes, e torna-se mais difícil identificar bonecos que representem coisas reais, quando não se tem contacto com bonecos ou livros.
Claro que as crianças na Europa são muito espertas desde pequenas, sabem tudo, dizemos. Têm livros desde os seis meses, cheios de bonecos, cores e sons. Vêm desenhos animados desde os dois anos e aos quatro têm computadores portáteis que ensinam as letras e números em inglês. É bom que lá seja assim, é pena que aqui não haja um livro nem por cada 100 crianças.

Aqui por casa as lições continuam. O livro das vogais já foi todo visto e revisto, o dos números idem. O percurso foi mais ou menos o seguinte: identificar a letra ou o número, colar os autocolantes respectivos, pintar e escrever a letra ou o número. Agora é repetir, por vezes encontrar alguns materiais na net e imprimir. Encontrei por exemplo estes blogs:
Espaço Educar
Coisas da Ana Paula
Desenhos Download

Agradeço se souberem de mais.

Para além dessas actividades a Maira aqui já viu um pouco de televisão. Disse-me que o pai de uma vizinha tem e que às vezes vê novela. Os primeiros bonecos que viu aqui em casa não eram nada apropriados. O Noddy salva o Natal tem o Natal, a neve, os presentes. Demasiadas diferenças mas a música do Abram alas pró Noddy entra no ouvido.
Por outro lado, um destes domingos vimos A ilha das cores. Isso sim, e fez-me pensar na Rua Sésamo. Por isso não posso deixar de fazer o pedido. Se tiverem materiais destes programas ou semelhantes que possam ser divertidos ao mesmo tempo que educam por favor enviem-mos.
Porque este post já vai longo e há mais de uma hora que amanhece e que o galo canta, volto ao trabalho e conto mais logo o 1º dia de escola da Maira.

quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

O FERIADO DA LUA

O Fim do Ramadão

Hoje foi o feriado da lua (21/09). Não o único mas um deles.

Terminou o mês do Ramadão, o nono mês segundo o calendário islâmico, um calendário lunar. Durante os últimos 30 dias os muçulmanos, que neste país se aproximam da metade da população, fizeram o jejum.
Foi das primeiras coisas que o Braima me disse quando me foi buscar ao aeroporto: Braima stá no djumdjum.
Ana sabe o que isso significa. Significa que Braima quer bidon de iagu fresca todos os dias ao final do dia para levar quando for cortar o djumdjum.

O jejum começou a 22 de Agosto porque nessa noite apareceu a lua nova que indicava o início do mês do Ramadão.
Durante este mês os muçulmanos não comiam nem bebiam durante o dia, desde as 6H da manhã até às 19:15H. Não é só o não comer e beber, na verdade eles não podem engolir o que quer que seja, por isso lembro-me sempre que, neste mês (o do Ramadão e não o de Setembro), vemos frequentemente pessoas a cuspir, para não engolirem o próprio cuspo.

O dia que assinala o fim do Ramadão é um dia muito importante. Ter sido capaz de aguentar o sacrifício daqueles dias é uma prova de fé. E é um feriado em que as pessoas vão à mesquita pela manhã, usando as suas melhores roupas, se possível novas, juntam-se e comem e bebem o melhor que podem.

Fez-me lembrar o Natal ou a Páscoa à medida que fui percebendo os preparativos que eram feitos.

O Braima quis um sabador novo para estrear nesse dia, pelo que no sábado anterior fui ao Bandim comprar uma coisa que nunca tinha comprado na vida.

Hoje o Braima apareceu passava pouco das 10H da manhã. Já tinha ido à mesquita e vinha orgulhosamente mostrar o seu novo traje, o seu novo tapete de oração e pedir postal.
As fotos vêm primeiro para aqui e só depois serão reveladas para lhe entregar.

Aproveito para lhe pedir alguns esclarecimentos, já que o Saliu e o Serifo vieram pedir apoio para ficarem a assistir à partida da lua na noite de 5ª para 6ª.

É a noite de mancida, explica. Mancida de ficar a ver amanhecer. O Dafé explicou-me mais tarde que também se chama Laylat al Kadr, e que laylat é noite em árabe. Na noite do 26º para o 27º dia do jejum a lua (minguante) desaparece por completo e os muçulmanos despedem-se da lua que significa o princípio do fim do Ramadão. As duas ou três noites seguintes serão de completa escuridão, é de descanso, dizem. E só na 29º ou 30º noite aparece a LUA NOVA que assinala então o fim do Ramadão e do jejum. É feriado!

Digo, animada, que hoje é dia de comer muito mas Braima responde apenas: “se pode”.

Na casa da família do Dafé pode-se. Passo por lá um bocado em resposta ao amável convite para a festa de fim de Ramadão e aprendo um pouco mais sobre o feriado, o Alcorão e o árabe. Não me demoro pois demorado foi o caminho para ir ao e vir do Bairro de Antula.

Mais tarde passo pela maior e mais bela mesquita de Bissau, onde Braima vai fazer oração, frente ao Hospital 3 de Agosto, na Avenida.


Aparecem uns meninos nos seus novos sabador a pedir festa e troco a festa por mais um postal de mais um dia diferente.

Bom feriado
e
Salam Aleikum
(Que a paz esteja sobre vós / convosco)

domingo, 20 de Setembro de 2009

SONS DE ACORDAR E AVENIDA CORTADA

Na terça-feira, dia 7, acordei ao som de sirenes, na quarta ao som do canto de aves, na quinta com a chuva a bater com força no chão, grade e portadas da varanda, e na sexta com o ruído do gerador. Adormeci sempre ao som ritmado do gerador.

Na terça o alarme das sirenes não era uma surpresa nem razão para alarme mas podia ser um motivo de curiosidade. Levantei-me e fui até ao cruzamento espreitar a Avenida.
Como imaginava, ainda deitada, uma das vias da Avenida estava reservada para viaturas do Estado, autorizadas com livre-trânsito ou de urgência.

Acontece com alguma frequência, por exemplo sempre que o Presidente da República viaja, na Avenida 14 de Novembro, ou melhor Avenida dos Combatentes da Liberdade (renomeada depois do assassinato do ex-Presidente Nino Vieira), é “cortada” uma via para passar a viatura presidencial e a respectiva delegação.

Quando isso acontece, se não for absolutamente necessário, não saio de carro durante o período que o corte de estrada durar. Todo o trânsito a circular numa só via é uma confusão de veículos que só visto e a diferença de demorar, por vezes, cerca de 1 hora a fazer um percurso que habitualmente se faria em 10 minutos.

Nesta terça-feira, no cruzamento, seis ou sete polícias controlavam a circulação de viaturas, impedindo sobretudo que entrassem ou se atravessassem na via reservada. Estavam nervosos. O mais velho deles, coxo, não queria nem deixar que os carros vindos do lado do bairro acedessem à via não reservada da Avenida, mas voltar para trás não era uma alternativa, e de vez em quando polícias e condutores gritavam uns com os outros e entre si.

As preocupações com a segurança eram enormes (as práticas seguidas questionáveis) mas não era de admirar; seis Chefes de Estado africanos e personalidades da vida política de diversos países vieram assistir à tomada de posse do novo Presidente da República da Guiné-Bissau: Malam Bacai Sanhá. Já antes tinha sido Presidente interino do país (1999/2000), é agora o 3º eleito, o 4º efectivo, e o 6º entre efectivos e interinos desde a independência.

Em todos os postes da Avenida (nunca iluminados) uma bandeira do PAIGC. Em todas as pessoas à beira da estrada uma esperança de que desta haja uma verdadeira mudança.
Fiquei um pouco à espera: queria ver passar a delegação do Presidente, na altura ainda o interino Raimundo Pereira, com os polícias batedores à frente, de lado e atrás, quase colados ao veículo presidencial ou então os 45 carros pretos compridos quase todos iguais, disponibilizados para esta cerimónia, penso que pela Líbia. Já os tinha visto passar no centro da cidade no dia anterior, todos em fila, quase colados uns aos outros, quatro piscas ligados e nenhum com matrícula. Quando eles passavam mais nada passava.
Esperei mais um pouco, passaram alguns carros do Governo, outros de missão diplomática, mas na verdade ainda havia pouco movimento. Aqui e ali uma ambulância com nome de um hospital em Itália ou um carro dos bombeiros de “Hudson Fire Department”. Traços da Guiné, sinal de ofertas no âmbito da cooperação internacional para ajuda ao desenvolvimento. Faz-nos sorrir.
Os ansiados carros e motas poderiam demorar a passar e havia muito trabalho para pôr em ordem neste feriado não programado, por isso quando recomeçou a chuviscar regressei a casa.

No final do dia soube que a cerimónia tinha corrido bem, sem incidentes, apenas com um atraso (típico) de três horas e meia. Ainda bem que não me demorei a ver os carros passar.

sábado, 12 de Setembro de 2009

ONDE ESTAVA COM A CABEÇA?

Não sei o que me deu para sair de casa hoje. Esteve a chover horas seguidas sem parar. Era óbvio que as estradas estariam assim. Ou não andasse eu a ver este filme há quase 5 anos.

(Avenida que vai da Praça dos Heróis Nacionais para a Mãe d`Água)

(Rua do Bonjour no centro da cidade)

Bom, tinha prometido a um amigo que ia com ele ver uma compra importante que ele quer fazer, que prometo contar se se concretizar, e ao final da manhã, quando parecia que o tempo ia melhorar um bocadinho, lá fomos. Não foi nada boa ideia e ao fim de umas voltas pela cidade, com o tempo sempre a piorar, acabámos por adiar a pesquisa no mercado para um dia mais seco.

(Lado oposto da Rua do Bonjour que vai dar às NU)

Na estrada do Caracol, paralela à Avenida, num só sentido Mãe D`Água – Chapa, a hesitação perante um lago de lama. Bom, a toca-toca passou, o jipe também passa. Entra na poça gigante quase até meio mas volta a sair. Tenho mesmo que ir para casa e ter juízo.

A chegar ao Bairro está o Saliu ao portão, debaixo de chuva, chinelos de enfiar no dedo em cima da lama:
- Queria muito vir fazer visita para a Dr.ª! Ainda não tinha vindo desde que Dr.ª voltou.
- Obrigada Saliu! Não era preciso. Muito menos num dia como este.
- Não tem mal. Maimuna emprestou esta sombrinha
(traz um chapéu-de-chuva grande, preto, com duas varetas partidas). Não tem dinheiro para comprar uma sombrinha assim.
- Quanto custa uma sombrinha assim?
- 2.500.


Estaciono e está a Maria à entrada do prédio encolhida e a tremer.
- Maria, estás com frio?
- Sim.
- Está de chuva mas não está frio.
(Muda e a tremer aponta para a cabeça)
- Ah, estás doente?
- Sim.
Subimos.
- Queres Ben-uron ou Aspegic?
- Sim.
Típico.
- Junta um bocadinho de água, mexe e bebe. Toma um agora, outro só logo à noite. As melhoras.
- Sim.

Passados uns minutos a campainha. O Saliu com uma sobrinha nova.
- Dr,ª homem queria 3.000 por causa de chuva mas só paga 2.500.
- Boa Saliu. Até 2ª.

Passado mais um bocado a campainha outra vez. O Cabi. Ah pois, tínhamos um trabalho para fazer. Listas de convites, envelopes, etc.
- As pastas?
- Não pude trazer Dr.ª, tá muita chuva.
- A pen com as listas?
- Dr.ª não trouxe pen
(ri-se). Deixei em casa. Está a chover muito, sempre desde de manhã.
- A pen no bolso não se molha, não?
- Dr.ª de manhã cheguei todo molhado à Faculdade para ir abrir a Biblioteca. Tinha roupa num saco e mudei lá depois de chegar.
- Esquece. Não digas mais nada. Trabalhamos segunda-feira.

A meio da tarde estou na secretária, a escrever no computador, cortinados todos abertos, olho pela janela e está o
André a fazer sinais lá fora à espera que o veja. Pelo menos tem sombrinha. Fechada. Já só caem umas pingas. Vou à varanda.
- André que andas aqui a fazer?
- Um passeio.
(Dentro do bairro?, que é privado. Sim, pois.)
- Devias estar em casa.
(Silêncio)
- Ana, fizeram outra vez.
(Espero)
- Comeram e não deram-me de comer.
- Sobe.

Mas porque é que não está tudo em casa num dia como este?!?!?, penso.
As últimas revelações do André, contadas nesta semana do regresso, estão a dar que pensar desde ontem. Talvez para partilhar mais tarde porque tem que ser tudo visto com muita cautela. Todas as outras histórias são mais comuns. São normais estes episódios na época das chuvas: pessoas que não vão trabalhar porque nem conseguem passar num local com tanta lama, pessoas encharcadas até aos ossos, pessoas que não têm mais roupa seca para vestir, pessoas que adoecem mais do que em outras épocas do ano, vendedores de rua que se mantém à chuva porque é assim, carros que avariam dentro de grandes lagos enlameados, de profundidade às vezes desconhecida.

terça-feira, 8 de Setembro de 2009

MAIS UM REGRESSO A BISSAU

- Ali é Bissau!
- Ali? Mas está nevoeiro?
- Não. É mesmo assim. Não há luz!
- Não há luz eléctrica em Bissau?!?!
- Quer dizer há um sistema de energia da rede pública alimentado por geradores, mas a maior parte do tempo não existe dinheiro para o combustível ou manutenção pelo que quase nunca há luz nas ruas.
O ar atónito do passageiro europeu, ao meu lado no avião, não passa nem quando o seu anfitrião, guineense que não vem à sua terra há mais de uma década, o tenta confortar dizendo que a casa da sua família (onde pelos visto irão ficar) tem luz.
Apetece-me dizer-lhe que se devia ter informado melhor antes de vir, literalmente, às escuras, fazer prospecção de mercado para investir no país, mas fico-me por um sincero “boa sorte”.

À saída do avião a temperatura é a melhor do mundo, quentinho como eu gosto, e o já familiar cheiro a terra molhada denuncia que tem chovido, ou não fosse a época dela.

As pessoas que me vão buscar ao aeroporto têm variado ao longo dos anos; há uma que não muda. Desta vez pedi ao Braima para ir ao aeroporto e levar-me o jipe. Mas assim que saio da porta do aeroporto vê-se o
André a ultrapassar toda a gente e é o primeiro a agarrar-me a mala. Não falha. O Braima espantado com a rapidez daquele e sem estar à espera fica a olhar para mim, como que à espera, e acabo por lhe entregar a mala do portátil porque no seu olhar parece que se não levar qualquer coisa nem parece que foi ele quem me veio buscar.

A caminho do jipe, no estacionamento, aparece o Revilino, e o Cabi estava na carrinha à espera, não me tivesse eu esquecido de ligar a pedir para alguém me vir buscar. Não era necessário, obrigada na mesma, e amanhã lá estaríamos na
FDB.

Pego no meu jipe, dos pouco bens materiais que me dão alguma satisfação, e volto a conduzir na escuridão de Bissau, em direcção a casa.

Antes há que deixar o Braima em casa dele e para tal, no mesmo cruzamento onde habitualmente viro para casa, viro no sentido oposto, à esquerda no cruzamento do Bairro da Ajuda, sempre em frente irá dar ao Bairro de Missira. O arrependimento a poucos metros depois de virar para ali: não há alcatrão, só terra, lombas, buracos, poças de água e lama, e a única luz é a dos faróis do jipe. Devia ter ido à volta pela “Chapa”. Continuo entre a 1ª e a 2ª velocidade procurando passar no bocado menos mau de caminho.

(Cruzamento do Bairro da Ajuda)

Dá para aproveitar uma pequena "visita guiada", sabia que era ali para aqueles lados e pergunto a Braima:
- Onde morava o
Baciro Dabó?
- 2ª à esquerda.
- Ao passar ao lado, espreito, e lá está, uma vivenda alta e iluminada a contrastar com tudo o que está à volta.

Continuo no escuro. De repente o barulho de um pequeno gerador e eis que no meio da tabanca surge uma casinha cheia de luz, portas e janelas abertas. Alfaiates vários, em grande azáfama até no alpendre, máquinas de costura, panos e linhas. Fantástico.

- Estão a trabalhar às 3:30H da manhã? – pergunto a Braima que responde naturalmente: - Tem que ser, estão a fazer vestidos para o Ramadão.

Sorrio. Não pude tirar uma foto mas aquela imagem está gravada e esquecer-me-ei dela muito depois de fotos que efectivamente tirei.

Deixo o Braima, que está agora no djundjun (jejum) à porta da sua casa e sigo para a minha, desta vez pelo caminho da “Chapa”, bem melhor.

A temperatura continua óptima na rua, não me cruzo com mais nenhum veículo. A sensação de que esta é uma aventura que não tem fim, que é assim há anos, e ainda poder ser surpreendida com pequenos mas grandes acontecimentos volta a estar presente e sinto-me bem por ter regressado.

(Estrada/caminho de lama em época de chuvas)

quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

A MEIDA QUE AFINAL É MAIRA E MUITOS PANOS

Preparar Setembro é a razão pela qual as últimas semanas em Bissau, antes de vir de férias no fim de Julho, são demasiado trabalhosas. Este ano preparar Setembro não significava apenas a época de admissão e a época de exames de recurso na FDB. Comprometemo-nos a inscrever a Meida na escola e as inscrições eram em Julho, as matrículas serão em Outubro. Era preciso actuar rapidamente sob pena de mais tarde não haver vaga.

A inscrição implicava a entrega da cópia de certidão de nascimento, fotografias tipo passe e o pagamento. É aqui que começa mais uma aventura guineense.

Afinal, a Meida embora crescidinha não tinha ainda sido registada. O único documento que tinha era um cartão de vacinas. A primeira ida aos Serviços de Identificação e Registo Civil do Bairro da Ajuda foi uma tentativa frustrada para registar a menina. Tinha pedido ao Eliseu para me acompanhar e o funcionário do registo, depois de eu dizer que queria registar aquela criança, olhou para os três e perguntou com ar desconfiado: Quem são os pais? Não me ri e disse apenas que não estavam. Era imperativo que eles fossem e por isso pedi à avó que os avisasse que viessem o mais rápido que pudessem para Bissau.

Nesse dia fomos apenas tirar as fotos tipo passe da Meida. Fiquei com a impressão que era a primeira vez que lhe tiravam fotos sem ser as minhas digitais, o que me fez anotar para revelar algumas fotos digitais que tenho dela para levar em Setembro.
Segunda tentativa nos serviços do registo civil, no dia seguinte, a meio da manhã. Mais uma missão abortada pois era tarde demais. Pagámos o impresso que o funcionário iria preencher mas tínhamos que voltar no dia seguinte às 8:00h da manhã.

À terceira é de vez, e desta vez também foi, mas não sem algumas peripécias. No boletim de vacinas, o único documento comprovativo da existência da menina até então, o seu nome escreve-se Maira, a sua mãe apesar de dizer que se chama Sábado e todos a conhecerem como tal, no único documento oficial que possui, a cédula pessoal (não tem BI) chama-se Rutte, o sobrenome de um dos avós estava escrito de forma diferente no documento oficial do pai e no boletim de vacinas dela. Ultrapassados todos os obstáculos ficou registada com o nome de Maira Mebum Sanhá, nascida a 28 de Julho de 2002, filha de Mebum Sanha e de Rutte Sanhá.

Voltei a Portugal para um período de férias e cheguei com a sensação de uma primeira fase de missão cumprida, e cheia de panos para a Lena, que estava muito feliz ontem com as novidades e os resultados obtidos. 157€ em pouco mais de um mês que darão para a inscrição e matrícula da Maira e para os cursos de informática da Menô e da Ondinha. Não tenho dúvidas que rapidamente conseguirá o suficiente para as propinas deste ano.
Modéstia à parte os novos panos vindos da Guiné-Bissau são ainda mais bonitos e o trabalho da Lena, embora não tivesse dúvidas, agora pude comprovar ao vivo que é fantástico e muito perfeitinho. É assim o meu novo porta-moedas Guiné-Bissau.

Obrigada Lena!

Parte da família da Maira (pai, mãe, Maira e a irmã mais nova, Rosária)