sábado, 5 de abril de 2008

A D. BERTA

Agora na casa da avó, num local onde se acorda com o crepitar do lume e o cheiro a café de cevada, e quando se olha pela janela de manhã o manto verde está coberto de branco, longe da Guiné por estes dias, lembro aquela avó que muitos adoptam em Bissau.
É um desafio falar numa mulher tão querida, tão admirada. Há muito que vos queria falar da D. Berta e tenho adiado à espera das palavras que consigam descrever o que se sente naquele lugar especial. À espera disso temo que as palavras nunca cheguem.
A D. Berta é uma mulher especial com um lugar único em Bissau, com um toque de encantado. O Cantinho da Avó Berta é também chamado de Pensão Central. Neste edifício, na Av. Amílcar Cabral, com uma grande varanda que rodeia todo o 1º andar, há um alojamento modesto e um restaurante com a estranha capacidade de nos transportar no tempo. Sabe quem já lá esteve do que estou a falar. Da calmaria após o almoço, a brisa a levantar um pouco todos os tecidos coloridos, panos de parede e toalhas, e se num desses momentos se tiver a sorte de ouvir uma “morna”, passar os olhos por cada um daqueles quadros, retratos, fotos, dedicatórias, paredes inundadas de recordações de décadas e décadas passadas.
A D. Berta nasceu em Cabo-Verde mas é Bissau que mais espaço ocupa no seu coração, na cidade que escolheu para viver há mais de 60 anos; foi nesta cidade que, durante o último conflito militar (1998) demonstrou as suas extraordinárias capacidades humanitárias, a sua solidariedade imensa. Pelas suas qualidades excepcionais foi já condecorada pelos 3 países a que mais está ligada: a própria Guiné (pelo Ministério do Turismo), Portugal, e há alguns dias por Cabo Verde.
Para além do quanto é boa, carinhosa, do quanto sabe ajudar, serve ainda alguns dos melhores pratos em Bissau. É ali que se come o melhor “Pitch Patch” - canja de ostras - e a melhor salada de camarão.
É um lugar familiar, e muitas das pessoas que por ali passaram adoptaram esta carinhosa avó, que por sua vez continua a ver crescer o seu rol de netos.
Hoje é daqueles dias que mais sinto o quanto é bom ter uma avó, aquela casa que não sendo “a nossa”, é aquela onde ainda sentimos que pertence uma grande parte de nós.
É por isso que compreendo este sentimento que liga muitos dos que aqui passam a avó Berta. É bom poder haver um lugar assim aqui tão perto, onde estamos tão longe.
(O texto foi escrito há alguns dias, quando estava efectivamente na casa da minha avó, infelizmente o tempo e a net só agora permitiram que o divulgasse aqui, agora novamente em Bissau.)

3 comentários:

João disse...

A minha outra avó...

Que saudades que tenho da sua companhia, da sua varanda e de a ouvir cantar muito baixinho…

Continuo a ir lá tantas vezes...

espaço história & arte disse...

Ol� Ana!!

q bom encontrar o seu blog... n�o nos cruzamos na Guin� por pouquinho, eu estive l� de Agosto de 2003 at� agosto de 2004, na ilha de Orango, nos Bijag�s q t�o bem conhece... foi uma experi�ncia q ainda agora (quatro anos volvidos) estou a digerir... j� sou um bocadinho bijag� e todos os dias tenho saudades...

hei-de c� voltar para as ir matando!!

mantenha pa b�

Henrique disse...

Olá Ana,
desculpa a invasão mas estava eu à procura de uma foto de Bissau para colocar num dos meus blogues sobre a Guiné quando entrei no teu e fiquei "preso".
Fiquei tão "preso" agora quanto fiquei "apanhado" por aquela terra/gente desde que lá estive na guerra em 65/67.
Ao ver e ler o teu blog tive um "arrepio na espinha" e apeteceu-me fazer o que tu fizeste e ir lá.
Isso já me aconteceu várias vezes mas tenho conseguido dar mais força à razão do que ao coração. Não vou!
Venho por isso convidar-te a ver como era aquela terra naquele tempo.

http://entrefogocruzado.wordpress.com/

http://rumoafulacunda.wordpress.com/

Se puderes e quiseres ficaria grato pelo teu comentário.

Entretanto venho pedir autorização para publicar a 1ª foto deste post no meu blog, obviamente com a indicação do autor e origem.

Um beijinho,
Henrique