terça-feira, 7 de setembro de 2010

DA PRIMEIRA À ÚLTIMA ATERRAGEM

Aterro em Bissau pela última vez. Consciente de que não sei se ou quando haverá uma próxima vez.
À medida que nos aproximamos do chão não se vê uma luz. As da pista, apenas, quando a alcançamos.
A chegada é mais semelhante à de há um ano atrás (AQUI) do que à primeira aterragem de todas, há quase seis anos. No entanto é desta que me recordo mais.

Na primeira vez que aterrei em Bissau quando chegámos à porta para sair do avião parecia que estávamos a entrar num forno. Nunca esqueci essa sensação. Tínhamos saído de Lisboa a meio da manhã, com tempo já um pouco fresco. Quando aterrámos em Bissau era de tarde, talvez cerca das 15 horas, estava sol e muito muito calor, o ar húmido e pesado que parecia que sufocava. Eu trazia um fato de linho branco, relativamente fresco, mas o João, para não trazer o pulôver de malha nas mãos, já cheias de bagagem, deixou-o vir vestido por cima de uma camisa. Também não esqueci a cara dele de quase pânico de quem queria tirar o pulôver de imediato mas com pessoas a descer as escadas à nossa frente e pessoas atrás de nós que as queriam descer era praticamente impossível fazê-las esperar para permitirem gestos tão simples como despir um casaco ou uma camisola.

Aqueles que iriam ser os nossos colegas naquele ano lectivo, e que o foram durante alguns mais, acenavam-nos do terraço por cima do aeroporto, onde era possível aceder e ver os aviões aterrar, levantar, acenar a quem chegava e a quem partia. Hoje isso não é possível. Não é permitido aceder ao terraço, que chegou a ter uma esplanada, e as horas tardias a que o avião chega e parte não facilitam.

Habituámo-nos bem ao “bafo” de Bissau. Ao tempo abafado do início e do fim da época das chuvas. E assim a aventura tem durado e este “forno” deixa saudades.


Desta vez chego sozinha. Não é a primeira vez. Tenho sorte: a minha mala é das primeiras a cair no tapete rolante (que está a funcionar) e saio de imediato. Cá fora o Braima espera por mim. Sei que posso confiar nele, sempre. É tarde e chuvisca. Tal como há um ano levo o Braima a casa; lembro-me do ano anterior e penso em ir pelo caminho da Chapa mas Braima diz que o caminho por aí está muito mau e temos que nos aventurar no caminho sinuoso que vai do cruzamento do Bairro da Ajuda para o Bairro de Missira. Não encontro os costureiros a trabalhar à noite, muito embora o fim do Ramadão seja nos próximos dias, mas por outro lado há alguns postes de iluminação acesos ao longo do caminho. Tem havido luz da rede pública o que é uma excelente notícia.

Quase no fim do caminho, onde já nem o jipe parece conseguir passar, Braima diz para dar a volta com o jipe que ele faz o resto do caminho a pé. Vejo-o por mais uns poucos metros porque os postes não chegam até ali e por isso Braima caminha em direcção à escuridão. Deixo de ver o que quer que seja e regresso a casa.

(Um poste e duas lâmpadas numa casa numa rua do bairro de Missira. Parece menos do que é.)

5 comentários:

Ana Sofia disse...

Gosto sempre tanto de "te" ler!

Aproveita bem este último mês de estadia em Bissau, que, como sabes, as saudades vão apertar.

Beijinhos!

hpc disse...

Que saudades disso aí...
Já não se pode ir ao terraço esperar quem chega? Que pena ... Era sempre muito divertido ver os brços a acenar, sabeia-se lá para quem.
Pelo sim, pelo não, eu acenava sempre. Não queria desiludir alguém e de qualquer forma era bom ver as saudações mesmo que não me fossem destinadas.
Aproveite bem. Bjs

OLHARES MÍOPES disse...

Vai fazer MUITA falta!
Quais os planos? Vem nos visitar em DC?
bjs

Ana Claudia disse...

Obrigada Ana e Helena,

As saudades vão ser muitas mas Bissau está diferente dos meus primeiros anos e disso já tenho saudades.

Carlos quem me dera.
Por agora não há muitos planos.
Vamos ver. Mas eu vou dando notícias.

João disse...

Jamais esquecerei a primeira aterragem em Bissau. Jamais esquecerei os amigos que fiz, deixem, encontro por aqui, reencontro quando regresso. Confesso que ainda não me habituei a saber que já não estás em Bissau. Parece que estarias mais perto lá… E quando regressar vou almoçar onde? Um beijo enorme e felizes regressos… JPC