terça-feira, 8 de setembro de 2009

MAIS UM REGRESSO A BISSAU

- Ali é Bissau!
- Ali? Mas está nevoeiro?
- Não. É mesmo assim. Não há luz!
- Não há luz eléctrica em Bissau?!?!
- Quer dizer há um sistema de energia da rede pública alimentado por geradores, mas a maior parte do tempo não existe dinheiro para o combustível ou manutenção pelo que quase nunca há luz nas ruas.
O ar atónito do passageiro europeu, ao meu lado no avião, não passa nem quando o seu anfitrião, guineense que não vem à sua terra há mais de uma década, o tenta confortar dizendo que a casa da sua família (onde pelos visto irão ficar) tem luz.
Apetece-me dizer-lhe que se devia ter informado melhor antes de vir, literalmente, às escuras, fazer prospecção de mercado para investir no país, mas fico-me por um sincero “boa sorte”.

À saída do avião a temperatura é a melhor do mundo, quentinho como eu gosto, e o já familiar cheiro a terra molhada denuncia que tem chovido, ou não fosse a época dela.

As pessoas que me vão buscar ao aeroporto têm variado ao longo dos anos; há uma que não muda. Desta vez pedi ao Braima para ir ao aeroporto e levar-me o jipe. Mas assim que saio da porta do aeroporto vê-se o
André a ultrapassar toda a gente e é o primeiro a agarrar-me a mala. Não falha. O Braima espantado com a rapidez daquele e sem estar à espera fica a olhar para mim, como que à espera, e acabo por lhe entregar a mala do portátil porque no seu olhar parece que se não levar qualquer coisa nem parece que foi ele quem me veio buscar.

A caminho do jipe, no estacionamento, aparece o Revilino, e o Cabi estava na carrinha à espera, não me tivesse eu esquecido de ligar a pedir para alguém me vir buscar. Não era necessário, obrigada na mesma, e amanhã lá estaríamos na
FDB.

Pego no meu jipe, dos pouco bens materiais que me dão alguma satisfação, e volto a conduzir na escuridão de Bissau, em direcção a casa.

Antes há que deixar o Braima em casa dele e para tal, no mesmo cruzamento onde habitualmente viro para casa, viro no sentido oposto, à esquerda no cruzamento do Bairro da Ajuda, sempre em frente irá dar ao Bairro de Missira. O arrependimento a poucos metros depois de virar para ali: não há alcatrão, só terra, lombas, buracos, poças de água e lama, e a única luz é a dos faróis do jipe. Devia ter ido à volta pela “Chapa”. Continuo entre a 1ª e a 2ª velocidade procurando passar no bocado menos mau de caminho.

(Cruzamento do Bairro da Ajuda)

Dá para aproveitar uma pequena "visita guiada", sabia que era ali para aqueles lados e pergunto a Braima:
- Onde morava o
Baciro Dabó?
- 2ª à esquerda.
- Ao passar ao lado, espreito, e lá está, uma vivenda alta e iluminada a contrastar com tudo o que está à volta.

Continuo no escuro. De repente o barulho de um pequeno gerador e eis que no meio da tabanca surge uma casinha cheia de luz, portas e janelas abertas. Alfaiates vários, em grande azáfama até no alpendre, máquinas de costura, panos e linhas. Fantástico.

- Estão a trabalhar às 3:30H da manhã? – pergunto a Braima que responde naturalmente: - Tem que ser, estão a fazer vestidos para o Ramadão.

Sorrio. Não pude tirar uma foto mas aquela imagem está gravada e esquecer-me-ei dela muito depois de fotos que efectivamente tirei.

Deixo o Braima, que está agora no djundjun (jejum) à porta da sua casa e sigo para a minha, desta vez pelo caminho da “Chapa”, bem melhor.

A temperatura continua óptima na rua, não me cruzo com mais nenhum veículo. A sensação de que esta é uma aventura que não tem fim, que é assim há anos, e ainda poder ser surpreendida com pequenos mas grandes acontecimentos volta a estar presente e sinto-me bem por ter regressado.

(Estrada/caminho de lama em época de chuvas)

9 comentários:

♥ Guida disse...

Xi, falamos nós da condição das nossas estradas :S Sabes, tenho inveja do calor, e das pessoas! Da maneira que descreves a tua vida na Guiné, as pessoas parecem todas humildes e simpáticas. Por cá, começamos a ter falta de pessoas assim.


Beijinho

No bai disse...

Sempre que te leio vem-me uma saudade tão grande de Bissau... Sinto falta da espera pela Época das Chuvas, da simplicidade das pessoas, dos grandes amigos que por aí fiz, os de cá e os daí.
Bom regresso e continua a escrever sobre essa terra que será também sempre minha.

Beijinhos com muitas saudades.

Ana Sofia disse...

Oh! Que saudades!...

Beijo grande!

MEB disse...

Que bom tê-la de volta e ter possibilidade de ler sobre a Guiné.O seu texto dá para sentir o cheiro da terra molhada e o barulho sincopado do gerador. Um beijinho

Mónica Lice disse...

Regressar sabia-me realmente sempre muito bem.

E o André é daquelas pessoas que marcam e que não se esquecem.

Beijinhos.

MM disse...

Olá Ana!! Bem vinda. Espero que nos encontremos em breve.

Monica

Bjs

Pedro disse...

Adorei este blog

Boingo disse...

Saudações de além mar:
Estava eu aqui em casa, procurando informações sobre Bissaú por mera curiosidade e pela fascinação que tenho por geografia, quando me deparei com este blog...Quanta coisa interessante pude aprender sobre a vida dos companheiros de Bissaú.
Já havia lido antes sobre a carência de eletrecidade na capital e começo a pensar: talvez, apesar de toda a pobreza que os rodeia, devem ser muito felizes. Aqui em são paulo, terceira maior cidade do mundo, passamos horas no trânsito e quando chegamos em casa, sentamos no sofá, ligamos a televisão ou o computador e esquecemos do mundo.
Em Bissau, as pessoas devem chegar do trabalho e se reunir em volta de um lampião movido á querose e passam horas a conversar, não ficam em frente ao sofá assistindo a RTGB.
Só uma coisa me intriga: como pode sentir saudades do calor infernal da africa equatorial? Meu Deus, São Paulo é a segunda capital mais fria do Brasil, no verão, quando muito chega aos 33° (Embora certo dia de 1999 tenha chegado aos 37°) e eu já acho insuportavel de aguentar, que dirá uma cidade úmida e quente o ano inteiro?
Mas pelo que li aqui, basta entrar em contato com o povo Guineense que até se esquece do calor e de todo o resto.
Paz para Guiné e um abraço deste Brasileiro feio, pobre mas feliz.

Anónimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado