sábado, 12 de setembro de 2009

ONDE ESTAVA COM A CABEÇA?

Não sei o que me deu para sair de casa hoje. Esteve a chover horas seguidas sem parar. Era óbvio que as estradas estariam assim. Ou não andasse eu a ver este filme há quase 5 anos.

(Avenida que vai da Praça dos Heróis Nacionais para a Mãe d`Água)

(Rua do Bonjour no centro da cidade)

Bom, tinha prometido a um amigo que ia com ele ver uma compra importante que ele quer fazer, que prometo contar se se concretizar, e ao final da manhã, quando parecia que o tempo ia melhorar um bocadinho, lá fomos. Não foi nada boa ideia e ao fim de umas voltas pela cidade, com o tempo sempre a piorar, acabámos por adiar a pesquisa no mercado para um dia mais seco.

(Lado oposto da Rua do Bonjour que vai dar às NU)

Na estrada do Caracol, paralela à Avenida, num só sentido Mãe D`Água – Chapa, a hesitação perante um lago de lama. Bom, a toca-toca passou, o jipe também passa. Entra na poça gigante quase até meio mas volta a sair. Tenho mesmo que ir para casa e ter juízo.

A chegar ao Bairro está o Saliu ao portão, debaixo de chuva, chinelos de enfiar no dedo em cima da lama:
- Queria muito vir fazer visita para a Dr.ª! Ainda não tinha vindo desde que Dr.ª voltou.
- Obrigada Saliu! Não era preciso. Muito menos num dia como este.
- Não tem mal. Maimuna emprestou esta sombrinha
(traz um chapéu-de-chuva grande, preto, com duas varetas partidas). Não tem dinheiro para comprar uma sombrinha assim.
- Quanto custa uma sombrinha assim?
- 2.500.


Estaciono e está a Maria à entrada do prédio encolhida e a tremer.
- Maria, estás com frio?
- Sim.
- Está de chuva mas não está frio.
(Muda e a tremer aponta para a cabeça)
- Ah, estás doente?
- Sim.
Subimos.
- Queres Ben-uron ou Aspegic?
- Sim.
Típico.
- Junta um bocadinho de água, mexe e bebe. Toma um agora, outro só logo à noite. As melhoras.
- Sim.

Passados uns minutos a campainha. O Saliu com uma sobrinha nova.
- Dr,ª homem queria 3.000 por causa de chuva mas só paga 2.500.
- Boa Saliu. Até 2ª.

Passado mais um bocado a campainha outra vez. O Cabi. Ah pois, tínhamos um trabalho para fazer. Listas de convites, envelopes, etc.
- As pastas?
- Não pude trazer Dr.ª, tá muita chuva.
- A pen com as listas?
- Dr.ª não trouxe pen
(ri-se). Deixei em casa. Está a chover muito, sempre desde de manhã.
- A pen no bolso não se molha, não?
- Dr.ª de manhã cheguei todo molhado à Faculdade para ir abrir a Biblioteca. Tinha roupa num saco e mudei lá depois de chegar.
- Esquece. Não digas mais nada. Trabalhamos segunda-feira.

A meio da tarde estou na secretária, a escrever no computador, cortinados todos abertos, olho pela janela e está o
André a fazer sinais lá fora à espera que o veja. Pelo menos tem sombrinha. Fechada. Já só caem umas pingas. Vou à varanda.
- André que andas aqui a fazer?
- Um passeio.
(Dentro do bairro?, que é privado. Sim, pois.)
- Devias estar em casa.
(Silêncio)
- Ana, fizeram outra vez.
(Espero)
- Comeram e não deram-me de comer.
- Sobe.

Mas porque é que não está tudo em casa num dia como este?!?!?, penso.
As últimas revelações do André, contadas nesta semana do regresso, estão a dar que pensar desde ontem. Talvez para partilhar mais tarde porque tem que ser tudo visto com muita cautela. Todas as outras histórias são mais comuns. São normais estes episódios na época das chuvas: pessoas que não vão trabalhar porque nem conseguem passar num local com tanta lama, pessoas encharcadas até aos ossos, pessoas que não têm mais roupa seca para vestir, pessoas que adoecem mais do que em outras épocas do ano, vendedores de rua que se mantém à chuva porque é assim, carros que avariam dentro de grandes lagos enlameados, de profundidade às vezes desconhecida.

11 comentários:

No bai disse...

Fizeste-me lembrar aquela célebre noite em que fomos jantar à Padeira e parecia que estávamos a recuar no tempo e a presenciar o Dilúvio!!!

Obrigada pelo texto!

Beijinhos

♥ Guida disse...

Ou seja, nesta altura dava mais jeito viver em barcos! Queixo-me eu da chuva em Lisboa no Inverno :\


Beijinho

ResNullius disse...

Adorei este post!
Aliás, sempre dou uma passadinha no seu blog para aumentar as saudades que sinto de Bissau. rsrs
Beijinhos!

Daniela Marta disse...

Que bom ter de volta os relatos do Africa-ana. Não conheço a Guiné-Bissau mas, não sei porquê, tenho um desejo enorme de conhecer. Aliás, estava planeada um viagem até lá com saída no próximo domngo, não fosse um imprevisto familiar. No entanto, estou desejosa de concretizar esta viagem no próximo ano. E é com o Afric-ana que vou aprendendo muito sobre este país, ou pelo menos, sobre Bissau. Obrigad pelos teus relatos!

* Atelier Ao Meu Gosto * disse...

Olá Ana!

Acabei de fazer uma Mala a pensar no nosso projecto!
Amanhã coloco no blog, acho que ficou bem gira ;)

Beijinho enorme,
Lena

Mónica Lice disse...

Saudades da chuva e de todas as pessoas que tão bem descreveste.

Um abraço para todos eles e um beijinho para ti.;-)

Mário Linhares disse...

É bom ter-te de volta a escrever sobre a Guiné!

Eu ainda ando meio trocado com o fuso horário de Timor...

Devo-te um desenho! Como fazemos?

Inês disse...

Que tempestade mesmo!
Parabéns pelo blog, adorei

Beijinhos*

vera disse...

gosto de ir lendo os teus relatos, tao longe que estou dessas terras e ainda tao proxima, sera paixao? ;-)

Pedro Moço disse...

Ana

Leio e releio muitos textos teus com frequência. Não só escreves com mestria, de uma forma directa e verdadeira, como descreves uma realidade de forma sensível e honesta. revejo a Guiné-Bissau em cada post teu. É sempre um regresso reler-te.
E a Guiné, como sabes pelo que já escrevi no "nosso" blogue entranha-se.
Estes teus posts são documentos etnográficos e culturais que não devem perder-se. Pouco se têm escrito sobre este pequeno país que nos apaixona. Sou da opinião que devias tentar publicar com pequenos "retoques" esta série de posts. Todos ficariamos a ganhar com isso.
A realidade que descreves neste post é tão próxima da realidade que até dói. Os guineenses são um povo simultaneamente afável e quase "infantil". Nalguns casos assumimos o papel de protectores/mentores com alguma facilidade. Mas são, sem dúvida, um bom povo. Um povo que merece mais, um povo que poucas possibilidades de escolha tem feito.

Continua a encantar-nos e pensa seriamente na publicação.

Pedro Moço

Anónimo disse...

Please, keep up the greet work and continue to post topics like this. I am really fan of your blog!